Ter que deixar seu país fugindo da fome e da violência é uma espécie de castigo sem tamanho para qualquer inocente que se vê refém de uma guerra política de interesses individuais. Se deixar família, amigos e tudo o que se viveu até então já é uma tarefa difícil, encontrar um novo lar também é algo um tanto quanto complicado. A jornalista Joselyn Alejandra Cornejo de Abreu contou a Folha Extra como é a viver na pele esta experiência.
Com apenas 24 anos, a jovem já morou em vários países da América do Sul, porém não da forma que ela gostaria como uma turista ou a trabalho, mas fugindo da ditadura Chavista atualmente comandada pelo presidente Nicolás Maduro. “Nasci e vivi minha vida toda em Caracas, mas, aos poucos, as coisas foram ficando difíceis e chegou um momento que minha família teve que deixar o país para conseguir trabalhar para poder sobreviver”, comentou.
Ao ser indagada sobre a situação de vida em seu país natal, Joselyn se emociona. “A gente sai da Venezuela porque quer ter condições de comprar uma casa, roupas, sapatos, coisas que aqui parecem simples, mas lá mal dá para ganhar dinheiro para comer e as vezes não dá nem para pagar remédios ou consultas em um médico. É algo triste e muito crítico”, lamenta.
Sobre as situações mais tristes que já presenciou na Venezuela, a jornalista destaca a fome como um dos maiores sofrimentos da população. “As pessoas estão procurando comida no lixo e comendo lixo. Isso é muito triste, porque ninguém quer ver um ser humano comendo lixo. As grandes redes de supermercados já fecharam e quando chega algum produto os preços são muito caros. O dinheiro venezuelano já não vale nada e só consegue comprar alguma coisa quem tem dólar”, comenta emocionada.
A violência e repressão é outro ponto que impõe sofrimento aos venezuelanos. “Lá as pessoas vivem com medo, pois a polícia tem ordem para matar quem for contra o governo. Os jornais são controlados e até mesmo os militares que decidem sair do regime de Maduro tem como pena a morte, pois são considerados traidores da pátria. Tenho companheiros de classe que hoje escrevem para jornais internacionais e sofrem perseguição, apanham e acabam presos, tudo a mando do governo. É proibido falar de política, do presidente e do governador. Não pode falar nas redes sociais, nem nas escolas”, denuncia.
Joselyn ainda faz um desabafo sobre a visão socialista do governo e seu reflexo na vida das pessoas. “Não acho que o socialismo seja algo bom, não presta para ninguém. Atualmente, não tem que fazer socialismo em nenhuma parte, porque não presta. As pessoas não veem o quanto é ruim porque é censurado, só gosta deste tipo de regime quem não o viveu, quem tem medo do governo ou depende dele”, frisou.
Sobre a mudança para o Brasil, a jovem relatou que encontrou um “novo mundo” no município de Wenceslau Braz onde reside com a família. “O namorado da minha mãe faz parte do programa mais médicos e conhecemos essa região através dele. Aqui tem de tudo, supermercados, farmácias, médicos. O que mais me chamou a atenção é que dá para gente sair à noite, andar com o celular na mão e o vidro do carro aberto. Por tudo que a gente passou na Venezuela, a melhor coisa aqui é ter segurança, pois no meu país está tudo muito perigoso”, relata.
Agora ela busca recomeçar sua vida na região do Norte Pioneiro, mas ainda encontra algumas dificuldades. “Apesar de ser difícil, estou empenhada em arrumar um emprego aqui para não ter que voltar para Venezuela. Sei que é meu país, mas lá está tudo muito triste e difícil. Meu visto como refugiada aqui depende de conseguir arrumar um emprego. Minha língua as vezes dificulta, mas estudei bastante e estou em busca de uma oportunidade para trabalhar e realizar meus sonhos aqui no Brasil”, destaca Joselyn.


