A Bíblia é um livro de gêneros literários e narrativas. É um livro polifônico, isto é, várias vozes em diversos territórios e épocas distintas falaram através das suas páginas. A Bíblia não possui unidade? Sim, ela possui unidade. Ela não está desconectada, pois possui um fio condutor de um personagem: Deus. A Bíblia é a história de Deus. Muitos evangélicos tomam gosto pela leitura através da Bíblia. Eles se tornam especialistas bíblicos. No entanto, eles ficam apenas na leitura da Bíblia. Nenhum outro livro no mundo há tamanha importância. É por isso que assistimos um movimento de fundamentalistas religiosos no Brasil. Tomás de Aquino disse: "Temo o homem de um só livro".
Jesus Cristo não subverteu a lei de Moisés, pelo contrário, Ele cumpriu. Mas a lei de Moisés eram leis públicas, isto é, serviam para o ethos de Israel. Na época de Jesus Cristo, os judeus estavam dominados pelo Império Romano. Isto significa que as leis públicas não faziam mais sentido. Por isso Jesus trouxe a lei da consciência (João 8). A revolução do Messias foi no coração e não na política. A lei de Jesus Cristo se desenvolve na intimidade com Deus. A sua libertação consistia em conscientizar o seu povo do modo de viver as boas novas (Mateus 5-6-7 – Sermão da Montanha). Como é esse novo modo de viver? Na partilha, no amor, na tolerância, no perdão, etc. Infelizmente falta consciência entre os cristãos/evangélicos do século 21. Aliás, falta uma interpretação correta dos textos bíblicos. Nestes tempos modernos não temos os mesmos grupos da época de Jesus Cristo: fariseus, saduceus, essênios e zelotes. No entanto, um novo grupo vem tomando posição no cenário evangélico. Ele carrega o pseudônimo de “Playmobil religioso”. O coro deste grupo se mistura com a voz do mesmo povo que pediu a Pilatos a morte do Messias e a liberdade de Barrabás. Além de incitar a morte do Salvador, o coro do Playmobil moderno convoca a unidade das igrejas evangélicas e Igreja Católica para lutar contra a indecência moral. Ou seja, a tal ditadura gay. O coro está conseguindo novos adeptos. O que parecia impensável na História das igrejas evangélicas está ocorrendo, ou seja, diversas denominações religiosas (com seus nomes esquisitos) e doutrinas diferentes estão se unindo para derrubar o “inimigo em comum”. Parece até um contrassenso contra a mensagem do Mestre: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”.
O Playmobil religioso fundamenta-se na ideia que o Reino de Deus tem extensão na política, cultura, educação e sociedade. Que não se deve mais se conformar com as imposições antirreligiosas e ateístas.
Fundamentada a sua missão – nós-contra-eles – o referido soldado medieval esqueceu-se do princípio primordial do evangelho: o amor.
O Messias escolheu como símbolo do seu ministério o jumentinho (serviço). Não precisou de alianças espúrias com políticos, pois o caminho da Graça não precisou dos Reinos deste mundo (Mt 4). Esteve com as multidões para saciar a sua fome. Foi ao cemitério visitar o endemoniado temido. Encontrou-se com Maria Madalena, a prostituta mais odiada que a Geni de Chico Buarque. Impediu o apedrejamento da mulher adúltera. Festejou em um casamento. Repartiu o pão com o povo e seus discípulos. Ao contrário do Playmobil moderno, o Messias reuniu multidões pelo poder do amor.
O discurso do Playmobil tem aparência de bondade, mas no fundo é fundamentalista, dogmático e pouco caridoso. O Playmobil religioso, conservador e moralista está mais preocupado em combater o corpo humano do que oferecer subsídios para o seu bem-estar.
Não importa a fome, sede e frio. O que importa é combater a sexualidade “desviada”.
O corpo sente fome, sede e frio. Lembre-se de Mateus 25. Abandone os círculos da classe média e observe a miséria das periferias. A única posição que se deve tomar neste momento não se chama imposição. Ao invés de conclamar multidões para lutar contra a tal “cultura gay”. Aliás, parece um contraponto se posicionar contra um grupo que merece respeito, amor e acolhimento. Faça ao contrário. Lute para que a violência não seja propagada. Seja um verdadeiro cristão e acolha sem acepções.
CARLOS EDUARDO MOCELIN


