Manifestantes estão dormindo na escola; bloquearam a entrada de alunos e professores contrários ao movimento
Com um número de escolas tomadas por manifestantes chegando a 800 no Paraná, na manhã da última quarta-feira (19) o maior colégio de Ensino Médio de Wenceslau Braz também foi ocupado por alunos que protestam contra diversas medidas do governo federal, incluindo a PEC 241 e as reformas nas séries finais propostas pelo Projeto de Lei (PL) 6.840/2013.
O Colégio Estadual Dr. Sebastião Paraná, que tem aproximadamente 600 alunos cursando o Ensino Médio, está com 10 manifestantes ocupando a parte interna da escola e uma média de 25 alunos apoiando o ato do lado de fora.
Uma estudante de 17 anos que está entre as líderes do movimento conta como foi a organização. “Nós fomos aconselhados por advogados e pelo diretor da UENP, e temos autorizações dos pais para estarmos aqui. Queremos melhorar a escola, limpar carteiras e paredes”, explica a aluna.
Os alunos explicam que a ocupação é legítima e não tem previsão para deixar o colégio. Uma ata de responsabilidade foi assinada entre o grupo e o diretor da instituição Jorge Rodrigues de Melo. No termo assinado, fica concordado que, durante as ocupações, quaisquer estragos e depredações que a estrutura venha a sofrer são de total responsabilidade dos alunos.
O movimento que não se intitula como ‘invasão’, diz reprovar qualquer ato de vandalismo. Segundo o grupo de alunos, em qualquer situação de pessoas não autorizadas tentando entrar na instituição, a Polícia Militar será acionada.
Para entrar na escola e fazer parte do protesto é preciso ter autorização dos pais e ser simpatizante do movimento. Os alunos que estão dormindo na escola estão sendo acompanhados por um responsável. “Temos um aluno da UENP cuidando dos meninos e uma professora cuidando das meninas. Estamos dormindo em grupos separados para não dar o que falar”, afirma a aluna participante do movimento.
Onda de ocupações em escolas cresce e chega em Satana
TODOS CONTRA UM
A razão que mais motiva as ocupações é o Projeto de Lei (PL) 6.840/2013, que prevê uma reforma geral nas séries finais.
A proposta estabelece que os currículos do ensino médio sejam organizados por áreas do conhecimento: linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas. A divisão visa priorizar a interdisciplinaridade e a aplicação dos conhecimentos em outras áreas – e também no dia a dia dos alunos e na realidade do Brasil e do mundo.
No último ano, além das matérias básicas, o aluno deverá optar por uma das grandes áreas para aprofundar os estudos, de modo que o estudante possa se dedicar mais ao campo de seu interesse. No futuro, caso decida mudar de área, ele pode retornar à escola e fazer uma nova opção formativa.
Se aprovado o PL, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) se tornaria obrigatório para os alunos. Outra medida prevista é que, nos próximos dez anos, 50% dos matriculados cumpram jornada escolar em tempo integral de, no mínimo, sete horas por dia, somando 4,2 mil horas em todo o ensino médio.
INDEPENDENTE
A greve dos professores não está interligada com a ocupação dos alunos. Apesar de alguns professores estaduais que lecionam no CESP aderirem à paralisação, as duas manifestações acontecem de maneira independente.
Os professores do Paraná estão lutando para que o congelamento dos gastos públicos não seja aprovado. A medida chamada PEC 241 que congela as despesas do Governo Federal, com cifras corrigidas pela inflação, por até 20 anos, afetará o salário dos professores de maneira negativa a partir de 2018.
E OS OUTROS?
Nem todos os alunos apoiam a ocupação das escolas. Alguns alunos da zona rural que vieram para ter aula na manhã de quarta-feira (19) não puderam entrar no colégio, pois encontraram os portões bloqueados. Ao perceberem que não poderiam entrar, aguardaram na praça o ônibus que os levaria de volta para casa. Eles afirmam que também são contrários às reformas do Ensino Médio feitas de maneira radical e sem estrutura, porém se sentem lesados pedagogicamente com a paralisação nas aulas.
REDE MUNICIPAL
No mesmo prédio em que funciona o CESP, paralelamente existe a Escola Municipal Maria Machado de Assis, cujo funcionamento não será prejudicado pela ocupação.
Os alunos que protestam, principalmente, contra a (PL) 6.840/2013, afirmam que não irão se retirar da escola até que a lei seja revogada.
REPOSIÇÃO
A secretaria de Estado da Educação esclarece que será necessário fazer reposição das aulas perdidas, seja por ocupações ou greve, pois a Lei de Diretrizes e Bases (LDB) estipula 200 dias letivos e 800 horas/aula no ano.
Como o calendário letivo deste ano vai até 21 de dezembro, devido às duas paralisações do ano passado – que duraram ao todo 73 dias -, as reposições deverão ser em fevereiro de 2017. “Janeiro é mês de férias para professores e funcionários. Possivelmente teremos que repor em fevereiro”, avalia a secretária de Estado da Educação, professora Ana Seres. Cada escola terá que elaborar uma proposta de calendário de reposição, conforme o número de dias que ficou parada. Os calendários precisam ser encaminhados aos Núcleos Regionais de Educação (NREs), para análise e posterior homologação.
A secretaria reitera sua preocupação com o aprendizado dos estudantes, que fica comprometido com as ocupações e paralisação. A rede estadual tem um milhão de estudantes. Somente no ensino médio, são cerca de 350 mil estudantes, e cerca de um terço deles prestará vestibulares no fim do ano, além de fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) no início de novembro.


