60% do carvão é produzido por meio da mão de obra familiar; maior parte da matéria prima usada é de reflorestamento
O brasileiro é um povo que consome uma quantidade considerável de carvão, fato justificado porque grande parte dos brasileiros aprecia um bom churrasco, seja em festas, aos finais de semana em casa ou até aquele comprado de ambulantes.
A cultura das carvoarias ainda gera emprego e renda à muitas famílias em todo o território nacional. Nos municípios de Sengés, Arapoti, Tomazina, São José da Boa Vista e Wenceslau Braz há mais de dois mil fornos de carvão, que em sua maioria trabalham de forma sustentável, gerando renda e emprego para as localidades.
Segundo o produtor João Inocêncio da Silva, cerca de 60% do carvão produzido na região é por meio da mão de obra familiar, contudo ele afirma que atualmente o preço do carvão está defasado e não acompanha a inflação. “Nos últimos anos tudo teve reajuste, pedágio, combustível e salário, porém o preço do carvão não acompanhou as altas”, destaca João.
MATÉRIA PRIMA
A principal matéria prima usada nas carvoarias é o eucalipto que na maioria dos casos é retirado de áreas que são cultivados para esse fim, chamadas madeira de reflorestamento. Adelson Marçal Correia, que trabalha na área da carvoaria há quatro anos relata que o melhor eucalipto é o da tipagem rosa. “Em Wenceslau Braz e região muitas pessoas trabalham no cultivo do eucalipto, pois o mercado consumidor é grande, tanto na área de carvoaria quanto para outras áreas”, relata.
Silva informa que toda madeira usada em sua carvoaria é de reflorestamento. “Para trabalhar dentro da lei, é necessário que a matéria prima seja extraída de forma legal, toda madeira é de reflorestamento, tudo dentro das normas que as leis ambientais exigem. Atualmente a plantação de eucalipto se tornou uma lavoura, e dificilmente falta na região”, explica.
A fiscalização das carvoarias é realizada pelo IAP (Instituto Ambiental do Paraná) e pela Força Verde, caso haja alguma irregularidade por parte dos produtores, são aplicadas multas pesadas e o produtor pode até ter a carvoaria fechada.
CICLO DA PRODUÇÃO
Desde o corte da madeira até o ponto de ideal para o forno, o eucalipto leva em torno de 90 a 120 dias passando por processo de secagem. Silva explica que esse período é fundamental para a obtenção de um carvão de qualidade.
Após a secagem, a madeira vai para o forno, onde fica de três a quarto dias queimando até chegar ao ponto ideal e mais dois ou três dias para o resfriamento para só então ser retirada do local, mas tudo isso depende das condições do tempo explica Adelson.
Augusto Fabiano, que trabalha em carvoaria há mais de 15 anos, explica que o progresso da carbonização é fundamental em todo o processo, que é avaliado pela coloração da fumaça liberadas pelas chaminés dos fornos. “A tonalidade clara da fumaça que sai dos fornos indica que o carvão está no ponto. Trabalhar com o carvão é mais do que simplesmente colocar a lenha no forno, há técnicas e conhecimentos que auxiliam em todo o processo”, explica.
O MERCADO
A venda do carvão vegetal para o uso caseiro é feita em todo país. Mesmo com o preço da mercadoria, defasado e sem grandes reajustes nos últimos anos, os carvoeiros se mantém confiantes e garantem que com a produção não é possível ficar rico, mas garante uma boa qualidade de vida.
A produção de Adelson é vendida nas cidades de Japira, Pinhalão, Ibaiti, Santo Antônio da Platina, Jacarezinho e Ourinhos. “As despesas são altas, pois ainda não tenho um veículo que possa transportar grande quantia de carvão, mas os meus clientes são fiéis e entendo que há mercado para todos os produtores”, relata.
Silva comercializa a sua produção na região metropolitana de Londrina e cidades do interior do estado de São Paulo. O produtor mantém uma relação de parceria com os clientes. “Procuro combinar um preço fixo com os meus compradores, pois durante o ano há altos e baixos no preço do produto, dessa forma mantenho uma média de lucro mesmo em períodos de preço baixo”, comenta.
Desde o ano de 2015, devido à situação econômica pela qual passa o país, o carvão não acompanhou a inflação e os reajustes, isso devido grande oferta que há no mercado. Ainda há certo preconceito com a cultura carvoeira, pois sua imagem está relacionada ao trabalho escravo e infantil. Os carvoeiros também postulam que não há incentivo por parte das autoridades, nem uma associação organizada de carvoeiros que possa prestar assistência técnica e jurídica aos produtores.


