Camas com cupim, paredes com infiltração, portas deteriorando; essas são as condições em que se encontra o lar onde vivem 26 idosos; problema que precisa da atenção de toda sociedade e do poder público
A situação das entidades filantrópicas no Brasil é um drama conhecido por todos, mas para o qual muitos fecham os olhos. São lugares onde pessoas doam seu tempo e recursos para que indivíduos sem recurso nenhum possam ser tratados com dignidade e ter suas necessidades básicas atendidas, situação que acaba atingindo em cheio os idosos que vivem em asilos.
A situação tem se agravado em diversos “lares”, como são chamados, como a situação do asilo São Vicente de Paulo de Santana do Itararé, cujo drama foi acompanhado pela equipe da Folha Extra e será apresentado aos leitores. O asilo conta atualmente com 26 internos e três funcionários registrados, duas enfermeiras e uma cuidadora.
Apesar do asilo ser uma instituição que tem como principal mantenedora 70% da remuneração dos aposentados que vivem no local, a ilusão de que não falta nada ainda é grande na mente da sociedade. Promoções têm sido realizadas para aumentar a arrecadação como bazares e jantares.
Celina Radoski é a atual presidente do asilo e explica que as dificuldades são inúmeras para que a conta do fim do mês feche sem déficits. “A comunidade precisa entender que aqui não temos ajuda fixa, temos doações que às vezes vem e às vezes não, contudo as necessidades são constantes. Todos os dias é preciso dar a comida e o remédio, assim como todo mês precisamos pagar os funcionários, pagar faturas de água e luz, são despesas que não esperam doações”, relata Celina.
“A ideia do poder público é que quando a pessoa se tornou idosa ela deixa de ser cidadã e toda responsabilidade passa para a família e o filantrópico”, continua.
DESPESAS
A presidente explica que os custos com farmácia ainda giram em torno de R$ 2,5 mil. As folhas de pagamento estão em dia e totalizam cerca de R$ 9 mil, porém os encargos atrasados de funcionários correspondem à parte defasada e atrasada das contas. O cargo de presidência é totalmente voluntária, sem qualquer remuneração.
As compras são feitas semanalmente pela falta de uma dispensa que comporte um volume mensal de alimentos, despesa que totaliza cerca de R$ 3 mil por mês.
A parte da infraestrutura também preocupa. “Nós estamos com muitas camas com cupim, que agora estão sendo substituídas através de doações. Os guarda-roupas estão dentro dos quartos e não poderiam estar, mas por falta de uma rouparia continuamos no improviso”, lamenta Celina.
Felizmente ainda existem muitas pessoas que se sensibilizam com a situação dessas instituições. Celina conta que neste ano receberam doações da prefeitura; doações de cobertores da cooperativa Sicredi todo ano; também de membros do Judiciário como promotor e juiz da comarca que visitam o asilo e reconhecem a necessidade. Alguns hospitais da região e médicos parceiros também fazem doação.
PODER PÚBLICO
Impossibilitados de receber recursos da prefeitura pela inexistência do Conselho do idoso, eles contam apenas com a solidariedade de alguns membros da sociedade. O conselho municipal serve para legalizar o recebimento de verbas do setor público e deve ser feito pela assistência social do município.
A equipe entrou em contato com o Cras (Centro de Referência em Assistência Social) e foi informado que a formação do conselho já está sendo finalizada e terá como coordenadora e representante Vanessa Firmino. “Só estamos aguardando a publicação da portaria, pois o prefeito já autorizou a formação do conselho”, garantiu Vanessa.
A equipe do Cras também informou que já presta alguns serviços técnicos como formalização de documentos dos idosos, por exemplo. Contudo a formação desse conselho é crucial para a viabilização das verbas e a espera já se estende há meses, desde o primeiro pedido.
COMUNIDADE
A falta de convivência com outras pessoas também compromete a saúde dos idosos, desenvolvendo até mesmo depressões. Em conversa com alguns idosos, eles contaram que recebem poucas visitas, exceto de grupos religiosos que fazem um trabalho voluntário na instituição.
“O envolvimento da comunidade é importante e precisa ser contínua. Os idosos não precisam de uma visita anual, eles precisam de pessoas que reconheçam suas dificuldades todos os dias, que não esqueçam que eles existem”, destaca Celina.
PRESIDÊNCIA
Celina assumiu há dois anos e em alguns dias deixa a presidência, pois seu tempo no cargo expirou. Ela conseguiu diversas melhoras como a restauração da sala de visitas e da cozinha, a troca de algumas portas, construção da rampa para melhorar o acesso dos idosos, porém há muito a ser feito.
As necessidades na parte da infraestrutura são da reforma da lavanderia que está toda comprometida, além de portas e paredes que precisam de reparos; tudo que gera custos altíssimos comparado a arrecadação. Atribuições que ficarão a cargo do próximo presidente, cujo nome ainda não foi cogitado. Celina aproveitou sua fala para fazer um apelo à quem interessar estar a frente dessa instituição. “O trabalho é árduo, mas é recompensador quando vemos a alegria deles a cada melhoria, sei que ainda falta muita coisa, mas saio com a certeza de que fiz tudo que estava ao meu alcance”, finaliza Celina.


