DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
QUATIGUÁ - Aos 40 anos, o quatiguaense Marlon Rouiller Vaz está prestes a tomar uma decisão que poucos se arriscariam a seguir. Funcionário público da Prefeitura de Quatiguá, no Norte Pioneiro do Paraná, ele embarcará para a Ucrânia, onde atuará como voluntário na guerra contra a Rússia, conflito iniciado em fevereiro de 2022 e que segue como um dos mais complexos e prolongados da atualidade. Para realizar um sonho de infância, Marlon pediu e obteve licença de dois anos do cargo público e se prepara para viver a rotina militar em um cenário real de combate.
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“Desde criança eu tinha o desejo de seguir a carreira militar. Não consegui ingressar no Exército Brasileiro, mas esse sonho nunca saiu da minha cabeça. Agora surgiu essa oportunidade e eu decidi ir”, afirma. A decisão, segundo ele, foi amadurecida ao longo do tempo e tomada com plena consciência dos riscos envolvidos. “Eu sei onde estou indo e o que posso enfrentar. Não vou por impulso”, garante.
Nos dias que antecedem a viagem, Marlon vive um período marcado por despedidas, emoção e muitas conversas. Amigos, familiares e colegas de trabalho acompanham com atenção, e certa apreensão, a escolha. “É um momento difícil, porque envolve pessoas que eu amo, mas também é bonito. Tenho recebido muito apoio, mensagens de carinho e incentivo. Isso faz toda a diferença”, relata.
Como forma de respeito à sua trajetória profissional, Marlon fez questão de se despedir pessoalmente da prefeita de Quatiguá, Izilda Rodrigues. No encontro, a gestora desejou boa sorte e manifestou o desejo de que ele retorne ao município após o período de contrato, com o objetivo pessoal alcançado e em segurança. “Ela disse que espera minha volta e isso me deu ainda mais força”, contou.
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A decisão de se voluntariar começou a ganhar forma após contato com um amigo que o incentivou a buscar informações sobre o alistamento internacional. Marlon realizou o cadastro em um site oficial e, em maio de 2025, foi chamado para entrevista, dando início ao processo de seleção e preparação da documentação. O caminho, no entanto, não foi simples. Ele enfrentou entraves burocráticos para emissão do passaporte devido a inconsistências relacionadas à sua situação como reservista, o que exigiu novos trâmites junto aos órgãos competentes. “Foi um processo cansativo, com idas e vindas, mas eu não desisti. Quando a gente quer muito algo, enfrenta as dificuldades”, afirma.
Com a situação regularizada, Marlon recebeu a carta-convite, documento necessário para a passagem pela alfândega, e confirmou o envio da passagem aérea aos recrutadores. A viagem será realizada com saída de São Paulo até a chegada à Ucrânia. Todos os custos foram bancados por ele próprio, com gasto aproximado de R$ 4 mil apenas na ida. “Eu assumi essa responsabilidade desde o início. Faz parte da decisão que tomei”, explica.
Ao chegar ao país, Marlon passará por um período de treinamento que pode variar entre quatro e nove semanas. Somente após essa etapa será designado para um batalhão, ainda não definido. Ele afirma que tentará firmar um contrato com duração de dois anos junto ao Ministério da Defesa da Ucrânia. Além da realização pessoal, diz que a motivação também envolve solidariedade. “Não é só um sonho meu. É um povo que está defendendo seu território, sua história. Eu sinto que posso contribuir de alguma forma”, diz.
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Marlon também destaca a ligação simbólica entre sua trajetória e a história de Quatiguá. Desde a infância, ouviu relatos sobre os conflitos armados ocorridos no município durante a Revolução de 1930, quando a cidade foi palco de uma batalha decisiva entre tropas gaúchas e forças paulistas. Um obelisco na Praça Expedicionário Eurides do Nascimento preserva essa memória, com registros históricos que apontam a existência de ossos de combatentes sob a estrutura.