DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
SIQUEIRA CAMPOS - A maior parte das cidades brasileiras surgiu a partir de caminhos de tropeiros, abrigos improvisados ou pequenos povoados que foram crescendo com o tempo. Mas Siqueira Campos, no Norte Pioneiro, nasceu de um jeito bem mais inusitado. Em 1848, um simples rolo envolvendo uma espingarda mudou o destino de um território que, hoje, abriga mais de 20 mil moradores. Quem mantém viva essa história curiosa é a família do professor José Cláudio de Sene Miguel, pentaneto de um dos primeiros homens a ocupar a região.
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José preserva relatos passados pela família ao longo das gerações, além de registros reunidos no livro de Joaquim Vicente de Souza, publicado em 2007. Segundo ele, parte da memória familiar se perdeu com o tempo, mas a essência da narrativa permanece: o território onde Siqueira Campos se desenvolveria foi trocado por uma espingarda de carregar pela boca. Um episódio que, segundo ele, sempre foi repetido pelos mais velhos como o ponto de partida da história local.
Da chegada ao cume da serra à posse das terras
Os registros históricos indicam que o primeiro homem “civilizado” a pisar na área onde hoje está o município foi Joaquim José de Sene, em 1843. Vindo de Faxinal, no interior paulista, Joaquim teria se maravilhado com a paisagem da Serra dos Pereiras. Segundo o livro de Joaquim Vicente de Souza, ao alcançar o topo do morro, ele subiu em uma enorme gamaleira - uma figueira branca de porte monumental - e, de lá do alto, tomou posse de tudo o que seus olhos alcançavam, marcando visualmente os limites de sua futura propriedade.
Uma negociação improvável: as terras pela espingarda
Cinco anos depois, essa vasta extensão de terras se tornaria parte de uma negociação improvável. Os documentos oficiais e até o próprio portal da prefeitura confirmam que, em 1848, Joaquim ofereceu toda a área ao bandeirante José Bernardo de Gouveia em troca de uma espingarda de carregar pela boca. O relato, apesar de antigo e com lacunas naturais deixadas pelo tempo, é repetido por gerações na família Sene.
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“Entre a época do Joaquim e a do neto dele existe um vazio histórico. Por isso, muita coisa se perdeu”, explica José. “Mas essa história da troca pela espingarda sempre foi contada na família.”
Entre os poucos documentos preservados, José destaca uma cópia, feita à mão em 1910, de uma oração escrita por seu tataravô, Fermino Herculano de Sene, e uma fotografia da família deste. Ele considera esse registro escrito como o item mais antigo que restou da memória familiar.
“De mão em mão” até se tornar Siqueira Campos
Após receber as terras, José Gouveia as vendeu aos irmãos Miguel Joaquim e Francisco de Paula por 700 mil réis - valor expressivo para época. Mas as negociações não pararam por aí. Entre 1855 e 1863, a área passou por várias transações, chegando às mãos das famílias Carvalho, Rocha e José Caetano. Foram esses grupos que estruturaram o núcleo inicial conhecido como Colônia dos Mineiros, posteriormente chamado de Colônia Mineira.
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O nome atual, Siqueira Campos, surgiu apenas em 1930, em homenagem ao revolucionário brasileiro homenageado por diversos municípios do país. A formação do patrimônio da recém-criada vila contou com doações dos próprios moradores, reforçando desde cedo o espírito comunitário que marcou a história local.
Hoje, espalhados por diversos municípios da região e até por outros estados, os descendentes da família Sene continuam compartilhando essa história - um lembrete curioso de como uma simples espingarda acabou dando origem a uma das principais cidades do Norte Pioneiro.