Por Oliveira Júnior - Folha Extra
O que deveria ser uma celebração de fé, união e esperança, como é, há quase um século, a Festa do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, foi manchada neste final de semana por um episódio vergonhoso: uma mulher espancada brutalmente em público, por outras mulheres, diante do santuário, sob o olhar apático de dezenas de pessoas. Nenhuma mão estendida. Nenhuma autoridade por perto. Nenhuma sirene. Mas muitos celulares gravando.
Não é só sobre violência. É sobre o colapso de um valor que costumava ser inegociável: empatia. E é sobre o fracasso de um modelo de festa que já não comporta mais a realidade à sua volta.
A vítima, Tayane de Souza, disse à Folha Extra que viveu o pior momento de sua vida. E foi clara em algo que grita como soco no estômago: “O que mais dói é saber que as pessoas preferem filmar do que ajudar”. E ela tem razão. A cultura do “vídeo viral” venceu a cultura da solidariedade. Hoje, salvar uma vida vem depois de conseguir likes.
O vídeo da agressão, que circula nas redes, mostra não apenas a covardia de quem agride, mas a omissão de quem assiste, filma e se cala. São quase dois minutos de uma mulher sendo chutada, arrastada e humilhada. E o que choca ainda mais: não aparece nenhum agente de segurança, seja do evento, seja das forças públicas. Nenhum.
É inevitável, então, fazer algumas perguntas incômodas, como toda sociedade séria deveria fazer após episódios como este:
- Quantos seguranças havia na festa?
- Onde estavam durante a agressão?
- Quem fiscaliza a venda de bebidas alcoólicas nos arredores?
- Se a festa não tem controle de acesso, se não há delimitação física, quem decide onde começa e termina a responsabilidade da organização?
Frei Carlos Gonzaga, responsável pelo santuário e pela coordenação do evento, disse em entrevista que a briga aconteceu fora da festa e que, portanto, a igreja não tem responsabilidade. Mas a vítima afirma que o confronto começou ainda dentro do espaço da festa. Mesmo que tivesse ocorrido do lado de fora, a omissão é evidente: a festa ocupa toda a cidade, e as barracas vendendo bebidas alcoólicas estão por todos os lados, inclusive em casas transformadas temporariamente em “lojas de álcool”.
E aqui está outro ponto que precisa ser enfrentado: a hipocrisia institucionalizada. A venda de bebidas é proibida dentro do pavilhão, mas é estimulada nas calçadas, barracas paralelas e ruas vizinhas. Como se bastasse desenhar uma linha imaginária no chão e dizer: “daqui para lá, não é mais comigo”.
Mas é sim. É com todos nós. É com a igreja, é com o poder público, é com a polícia, é com a sociedade.
A festa do Senhor Bom Jesus continua sendo um símbolo poderoso de fé, devoção e tradição. Mas a fé também exige responsabilidade. E o sagrado não pode ser usado como biombo para esconder falhas gritantes de gestão, segurança e humanidade.
Se a maior festa religiosa do Norte Pioneiro não for capaz de garantir o mínimo , o direito de uma pessoa não ser espancada sob aplausos do silêncio, então algo está muito errado. A fé que move multidões deve ser a mesma que nos mova para agir quando o próximo cai no chão. Do contrário, não é fé. É fachada.
Que essa cena não se repita. Que os vídeos de amanhã sejam de romarias, e não de brutalidade. E que, acima de tudo, a próxima pessoa a cair encontre mãos que a levantem, não câmeras que a exponham.

