Um olhar “europeu” sobre o Norte Pioneiro
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Abrindo a série de entrevistas “ping-pong” que a Folha Extra fará com pessoas naturais do Norte Pioneiro e que posteriormente conseguiram destaque longe destas terras, Oswaldo Giacóia Júnior, nascido em Ribeirão Claro e hoje professor titular da Unicamp.
No entanto, o espaço de tempo entra a saída de Giacóia do Norte Pioneiro, então com 15 anos, e a atualidade fizeram deste cidadão um ícone da filosofia no Brasil e internacionalmente conhecido por alguns trabalhos, especialmente relacionados ao filósofo alemão Friedrich Wilhelm Nietzsche.
O currículo de Oswaldo impressiona (e faz qualquer jornalista prestes a entrevistá-lo tremer tamanha bagagem intelectual e cultural já notada antes de qualquer contato). Formado em filosofia e direito, respectivamente, pelas renomadas Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e Universidade de São Paulo. Detalhe: cursou ambas simultaneamente e teve suas duas primeiras formaturas em nível universitário em 1976. Posteriormente, ainda pela PUC, teve seu mestrado em filosofia, em 1983. Cinco anos depois conseguiu o doutorado em filosofia pela Universidade Livre de Berlim, onde também fez pós-doutorado em 1993/1994. Giacóia ainda tem outros dois pós-doutorados: pela Universidade de Viena, em 1997/1998 e pela Universidade de Lecce, em 2005/2006.
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Claro que além de tudo isso, é impossível não citar a simplicidade de Oswaldo e sua visão ímpar sobre o local onde nasceu, constituída por amor ao Norte Pioneiro e a experiência de ter morado por anos na Europa, além, claro, da sua própria capacidade filosófica e humana mesmo de enxergar e analisar o passado, o presente e projetar o futuro da região.
Para o entrevistado, o Norte Pioneiro tem um ritmo próprio de crescimento, mas que tem, sim, se desenvolvido com o passar dos anos, contudo, Giacóia alerta para a “passividade” da região perante as questões políticas, o risco de se tornar um pólo turístico sem a devida estrutura e a relativa perca de identidade.
FOLHA EXTRA: O senhor morou anos fora do Brasil e conheceu centenas de lugares, como essa experiência de vida o faz analisar a atual situação do Norte Pioneiro?
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Oswaldo Giacóia: Eu me sinto em uma posição privilegiada sobre o Norte Pioneiro. Embora tenha saído daqui aos 15 anos, sempre mantive uma relação bem próxima, tenho laços profundos com a região, por toda a questão de ser o lugar onde eu nasci, onde parte da minha família viveu e ainda vive (a mãe de Oswaldo até hoje mora em Ribeirão Claro) e por ser um lugar de onde eu gosto muito. Desta forma, eu digo que o Norte Pioneiro é uma região com uma cultura própria muito rica, que se desenvolve, de uma forma particular, no seu próprio ritmo, mas que tem sim se desenvolvido com o passar dos anos e que tem passado por um processo de transformação cultural considerável.
FOLHA: Ao seu ver, como é essa transformação cultural?
Oswaldo: Veja bem, essa transformação começa pelo campo. Hoje em dia as fazendas estão em boa parte fragmentadas, o espaço destinado a cultura do café foi reduzido drasticamente. Em qualquer sítio existe não só energia elétrica, como computadores, celulares e acesso a internet. Aquela figura do caipira praticamente não existe mais, exceto por pequenos enclaves onde isso se mantém vivo. Depois vem a questão do trem, que uma administração federal míope deixou com que acabasse, e isso prejudicou o país inteiro, e também o Norte Pioneiro, que tinha na linha férrea uma riqueza própria e hoje não tem mais. Além disso, como eu já falei, a região tem se desenvolvido, mas em um ritmo próprio. Temos o nosso próprio “time”. Não podemos esperar uma agricultura completamente mecanizada como a do Norte Novo, por exemplo. Mas essas transformações ocorrem dia a dia, seja na política, nas questões profissionais, nas questões educacionais, ainda que nesse ritmo próprio. Não tenho dúvida que o Norte Pioneiro tem mudado e para melhor.
FOLHA: O senhor citou a riqueza cultural do Norte Pioneiro. Mas é nítido que existe até um certo descaso por parte da região com essa questão.
Oswaldo: Infelizmente existe. Da minha geração, por exemplo, existem várias pessoas que contribuíram muito, fizeram coisas de grande importância, e estão sendo esquecidas. Sinto que quando minha geração morrer, uma parcela enorme da história do Norte Pioneiro irá se perder. Temos falta de museus, de incentivo do Poder Público e de interesse por parte da população também. Aqui em Ribeirão Claro temos a casa onde moraram os pais do compositor Luiz Carlos Paraná, que é reconhecido nacionalmente, mas talvez o vizinho desta casa não saiba quem é Luiz Carlos Paraná.
FOLHA: Hoje a região tem mostrado uma tendência em investir no turismo, como senhor analisa isso?
Oswaldo: Claro que pode ser muito bom, mas desde que seja algo planejado, do contrário pode ser algo perigoso e até destrutivo para o Norte Pioneiro. O turismo, sem planejamento e infraestrutura, pode transformar a vida dos cidadãos das cidades que recebem os turistas em um verdadeiro inferno, e acaba vivendo como um parasita. É uma mudança na vida social da cidade muito grande. E sem o devido cuidado isso causa poluição, subida de preços e uma especulação desenfreada. Por isso é preciso muito cuidado na hora de se pintar uma cidade como turística. É só analisar o colapso que as cidades litorâneas vivem durante as temporadas, com falta de produtos e serviços básicos e até água, e saber que proporcionalmente isso pode acontecer aqui. Claro que não virão milhares de turistas de um dia para outro, mas a nossa capacidade física pode entrar em colapso com um número relativo pequeno, já que nossas cidades são pequenas, não temos aeroportos e rodovias duplicadas, além de um comércio e a infraestrutura física mesmo apta apenas para a demanda rotineira. E não tem como exigir que se transforme tudo isso de um dia para outro simplesmente para atender 30 dias por ano e os outros dias ficar ocioso. Por isso a necessidade de um planejamento profundo antes de qualquer ação de marketing ou de qualquer outra origem visando o fortalecimento do turismo regional.
FOLHA: O senhor já citou o trem como parte da nossa cultura perdida, como enxerga essa questão como um todo?
Oswaldo: Acho que chegará uma hora que o Brasil vai entender que não tem como sobreviver mais sem o trem. Acho que o trem-bala vai sair do papel e pode ser que acabe por fazer voltar o transporte férreo uma tendência. Quando eu era criança a maior aventura era pegar o trem noturno em Ourinhos e ir até São Paulo. Na Europa eu priorizava as viagens de trem. Para se ir de Londres a Paris leva cerca de três horas, para se ter uma ideia, com a diferença de que de avião você precisa pegar taxi, porque geralmente os aeroportos são distantes dos centros, fazer check in, e tem toda aquela burocracia, enquanto de trem desce no centro da cidade sem maiores problemas. Espero sinceramente que um dia o transporte ferroviário seja uma realidade em todo o Brasil, e lógico, também no Norte Pioneiro.
FOLHA: Para finalizar, qual é sua expectativa em relação ao futuro da região? E qual é o principal ponto a ser melhorado?
Oswaldo: Eu sou otimista, de verdade. Vejo que a região tem capacidade para se desenvolver bastante ainda. Agora, eu quero aproveitar para deixar registrado que o Norte Pioneiro sofre com uma carga inercial gerada por estruturas políticas inflexíveis. É preciso que a população se desfaça dessa espera em torno da política. A iniciativa em promover mudanças precisa partir da comunidade em direção ao Poder Público. As pessoas precisam entender que não foi o prefeito que asfaltou uma rua, e sim foi o Poder Público, usando do dinheiro público, cumprindo sua função. A comunidade tomar as rédeas e fazer suas exigências, promover mudanças e reivindicar o que realmente quer e precisa é fundamental para o progresso. E o Poder Público, por sua vez, precisa aprender a incentivar os talentos e os dons que o Norte Pioneiro tem. Entender quais são as demandas e agir. Novamente dando um exemplo, aqui em Ribeirão Claro existe toda uma cultura de indústrias moveleiras, mas isso acontece por ser uma herança de italianos que vieram para cá e os descendentes continuaram, mas sem nunca haver um incentivo das administrações. Penso que se em cada lugar se fizer políticas públicas para potencializar os talentos haveria um desenvolvimento significativo.
Por LUCAS ALEIXO