Existe um jornal sobre a mesa da sala de espera. O tema principal é Abuso Sexual Infantil, parece repetição da mídia, deve ser alguma semana especial ou algo assim. Olho no relógio chegou a minha vez, está na hora de ir buscar o filho na escola.
O encontro do fim de tarde é sempre cheio de perguntas. Como foi a aula; Alguém novo na escola? Os professores te trataram bem? Nenhum coleguinha “mexeu” com você? Esse roxo é o que? Imagine se uma das respostas do seu filho fosse “Mãe fui abusado”. Com certeza foi na escola, nesse lugar não tem ninguém pra cuidar das crianças? A situação parece sair do controle, os sentidos somem, o ódio toma conta e a ré já está engatada para voltar pro colégio, quando o filho diz “Mãe foi o tio”.
Essa situação hipotética mostra um dos poucos casos onde a vítima conta à um familiar de confiança que está sendo abusado por alguém próximo, contudo a maioria das vítimas desse tipo de agressão tem medo de expor a situação, receio das consequências com ele e com entes queridos.
Quantos casos de abuso podem estar acontecendo dentro da própria casa, enquanto as famílias esperam que a situação só possa vir de um estranho?
Ninguém é culpado pela atitude do outro, mas somos culpados por não conhecer nossos próprios filhos e, na falta do diálogo, no medo de saber, confiarmos cegamente em todos, enquanto nossos filhos pedem socorro fora de casa. Buscam atenção de professores, de vizinhos e colegas.
A resposta não está em viver sob a pressão e o terror de que um filho vai sofrer abuso, mas sim no diálogo contínuo, na observação dos detalhes e na união familiar.


