Enquanto nos grandes centros urbanos a maior causa de mortes está relacionada à violência, na região os números de suicídios vêm crescendo. Em 2017, apenas em Wenceslau Braz, já foram registradas sete ocorrências.
No Norte Pioneiro, segundo dados do Instituto Médico Legal de Jacarezinho, dos 168 óbitos registrados em 2016, 40 casos foram provenientes de suicídio, número que superou as mortes por homicídio que foram 30. As outras 98 mortes estão relacionadas a acidentes de trânsito.
Ainda de acordo com dados do IML, Wenceslau Braz é o município em que mais são registrados casos, seguido de Joaquim Távora, Siqueira Campos e Tomazina. Nos seis primeiros meses de 2017, o IML já registrou 14 mortes por suicídio.
O assunto vem ganhando espaço na mídia, redes sociais e saúde pública, mas ainda não tem uma abordagem expressiva. A campanha mais conhecia é a do “Setembro Amarelo”, um mês dedicado à prevenção e debate sobre o suicídio.
Mãe pede ajuda para encontrar filha desaparecida em Wenceslau Braz
“É importante que se fale cada vez mais, que haja mais campanhas para prevenção, pois o suicídio é um problema de saúde pública no Brasil e não é muito divulgado. É como um tabu, as pessoas não gostam de falar sobre a morte, falam que é falta de Deus e essas coisas”, relata a psicóloga Tâmille Cristhine de Morais.
Os principais fatores relacionados à incidência do suicídio são situações que levam o descontrole emocional e psicológico da pessoa ao extremo, sendo denominadas “questões interpessoais”, ou seja, situações que causam a frustração e sofrimento. As principais causas de suicídio, geralmente, estão relacionadas à depressão, uso abusivo de drogas ou álcool, violência sexual ou doméstica e o bullying.
Nesse aspecto, a morte se torna a única saída para aqueles que não suportam mais a situação de vida em que se encontram, não vendo alternativa a não ser acabar com a própria vida para cessar o seu sentimento de dor, sofrimento, angústia, frustração e etc.
CAUSAS
Outros fatores relacionados às causas que podem levar ao suicídio é o uso indiscriminado de medicamentos ou, ainda, a sua banalização. A pressão proveniente de diferentes situações podem causar ansiedade, sensação de incompetência, frustração, depressão e, consequentemente, fazer com que a pessoa se sinta em um beco sem saída e veja a solução no suicídio.
Diogo Ribeiro relembra a despedida de seu primo que tinha 24 anos e se suicidou há um ano. “Meu primo começou a falar que tinha acabado para ele, agradeceu todo mundo pelos momentos bons que tinha vivido com a gente e para esquecer o que ele ia fazer, porque a vida acabou para ele e não tinha mais o que fazer. A gente o via bem, achei que era brincadeira, porque não sabia o que estava acontecendo com ele e que realmente ia fazer isso”, comenta.
O principal motivo dos jovens serem líderes do ranking de suicídios está relacionado à transição que acontece na vida dos seres humanos neste período. Entre os 15 e 24 anos há uma cobrança pessoal e social muito grande por aceitação, status, relacionamentos, beleza, estereótipos, sexualidade, estudos, ingresso na faculdade e etc. “Os adolescentes tem alguns conflitos, às vezes por questões de sexualidade quando a família não aceita, ou quando se sentem rejeitados pela família, escola ou amigos, têm as questões das relações sociais”, pontua Tâmille.
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Já a partir dos 25 anos, as principais causas estão relacionadas ao emprego e busca pelo sucesso pessoal e profissional o que, em alguns casos, pode causar frustação e decepção. Paralelo a isso tudo, ainda se tem o uso abusivo de drogas e álcool. “Fora essa faixa etária de adolescentes e jovens adultos que apresenta maior índice, também existem casos de homens a cima dos 50-60 anos que se aposentam e comentem suicídio pela sensação de inutilidade”, relata a psicóloga.
PREVENÇÃO
As famílias devem estar atentas à ocorrência de mudanças no comportamento de seus entes em suas atividades cotidianas, onde o indivíduo deixa de praticar atividades que antes lhe davam prazer, onde as mulheres perdem a vaidade, quando a pessoa relata grande sofrimento, tristeza, falta de vontade de viver ou até mesmo fala em se suicidar; devem estar preparadas para compreender e ajudar. Os amigos também devem relatar as famílias quando souberem de situações ou relatos relacionados a estes casos.
“A família deve intervir pela pessoa, pois ela precisa de ajuda. Na maioria dos casos o suicídio é uma surpresa porque ninguém esperava que isso acontecesse ou que a pessoa fosse capaz de tomar essa atitude, por isso à família deve estar atenta ao comportamento dos seus entes”, explica Tâmille.
Cuidar da saúde mental é tão importante quanto cuidar da saúde física. Não deve existir preconceito ou mitos sobre “psicólogo é coisa de louco”, pois assim como as pessoas cuidam de seus corpos devem cuidar da sua mente.
ONDE PROCURAR AJUDA?
Os municípios da região do Norte Pioneiro oferecem atendimento através da Assistência Social e SUS (Sistema Único de Saúde). As pessoas que estão passando por momentos complicados em sua vida com episódios de depressão, tentativas de suicídio e correlatos, devem procurar atendimento nos postos de saúde para que sejam encaminhadas para o acompanhamento de psicólogos ou psiquiatras.
A prevenção e acompanhamento são importantes, pois aumentam as chances da pessoa dar a volta por cima e se recuperar, não correndo mais risco de atentar contra a própria vida. “Existem casos que até quem está fazendo a terapia pode cometer suicídio, mas quando a pessoa busca ajuda as chances disso ocorrer são menores, porque o indivíduo não quer morrer, ele quer apenas se livrar do sofrimento e vê uma forma de fazer isso através da morte”, finaliza a psicóloga.


