A definição de família há muito tempo foi relacionada a um modelo composto por pai, mãe e filhos do casal, porém essa não é a única configuração que encontramos na sociedade.
Com o passar dos tempos a realidade não é a mesma e, apesar de um imaginário social, aos poucos os cidadãos estão mudando suas concepções.
O Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que cada vez mais o parâmetro de família deixa de ser um retrato fidedigno dos lares. Pouco mais da metade (54,9%) das famílias no Brasil são constituídas por um casal heterossexual com filhos. Os outros 45,1% se desdobram em uma pluralidade de arranjos.
Em 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união estável para casais do mesmo sexo. Já em 2013, o casamento homoafetivo se tornou possível para os casais através do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que emitiu uma resolução determinando que todos os cartórios do país realizassem casamentos entre pessoas do mesmo sexo.
Atualmente, há milhões de brasileiros que não se enquadram no conceito de família tradicional e permanecem na luta para não ter seus direitos suprimidos.
Segundo a psicóloga Tatiane Zambianco, as pessoas não escolhem sua orientação sexual, isso já nasce com elas. “A psicologia não acredita que há mudança de orientação sexual, a justificativa para hoje haver mais casais homoafetivos é que antigamente era mais difícil de se assumir, consequentemente várias pessoas viviam da forma que agradasse a sociedade, porém hoje, graças a abertura do corpo social as pessoas não precisam mais se esconder”, explica.
“A mudança cultural vem favorecendo a forma das pessoas viverem, e apesar de muito preconceito elas estão conquistando um espaço muito importante na sociedade”, pontua.
FAMÍLIAS HOMOAFETIVAS
As famílias são instituições sociais que se transformam ao longo da história, com isso, encontramos várias formas de organização familiar, uma dessas configurações são os casais homoafetivos. Em Wenceslau Braz, a Folha Extra entrevistou Vivian Cristina de Meira e Raissa Rodrigues, casadas há seis anos, elas falam sobre as dificuldades que enfrentaram para permanecerem juntas.
Apesar de encontrar obstáculos na aceitação da mãe, Raissa conta que o pai foi seu melhor amigo nessa transição. “O preconceito ainda é muito grande, acredito que por morarmos em uma cidade pequena isso ainda é pior, mas notamos que o tratamento das pessoas mudou bastante, se comparado a quando me assumi, minha família é prova disso, hoje a minha mãe adora minha esposa”, conta.
Ao contrário de Raissa, Vivian encontrou contrariedade pelo lado conservador do pai. ”Meu pai não aceitava a nossa relação, acredito que por eu ter tido um relacionamento anterior no qual minha namorada me batia, ele não queria me ver sofrer novamente e a forma de me proteger foi querer evitar que tivesse esse novo relacionamento”, relembra emocionada.
“Mas há seis anos atrás encontrei meu verdadeiro amor, infelizmente meu pai não está mais aqui para presenciar minha felicidade, porém sei que lá do céu ele está vendo o quanto estou bem e feliz”, continua Vivian.
Neste ano, o casal completa seis anos de união e no mês de outubro oficializarão a relação com uma cerimônia no civil, elas serão o segundo casal homossexual a legitimar a união em Wenceslau Braz.
“Nós esperamos muito por isso, infelizmente no ano passado não tivemos condições, porém em outubro se Deus quiser realizaremos esse sonho, e para o ano que vem decidimos que seremos mães”, explica Raissa.
Para chegar onde estão hoje, Raissa e Vivian contam que passaram fome e chegaram a dormir na rua. O casal dá um recado para as pessoas que ainda não se assumiram. “É muito importante ter certeza de sua orientação, pois, o sofrimento para quem se assume é enorme, e se for apenas paixão não vale a pena”, explicam.
RESPEITO
Com o passar dos anos o conceito de família se tornou muito amplo, com essa nova concepção a igreja vem buscando encontrar caminhos para acolher cada vez melhor os casais homossexuais.
O Padre Lourival Valério Paulino, enaltece que todos os seres humanos são criados com a imagem semelhante de Deus e não podem ficar de fora da acolhida da misericórdia divina, ele ressalta ainda que é necessário ter respeito acima de tudo.
Raissa e Vivian contam que se sentem acolhidas na igreja. “Nós sentimos um tratamento muito bom dentro da instituição religiosa, o padre nos recebe muito bem e até conversa conosco dando uma atenção que muitas vezes não tivemos”, esclarecem.
Tatiane explica que o correto é ensinar que acima de tudo se deve ter respeito, pois existem várias diversidades de famílias. “A criança assimila tudo aquilo que a gente ensina, então é necessário ensinar para o seu filho que ele precisa aceitar que aquelas duas mulheres ou aqueles dois homens estão juntos por que se amam, é bom esclarecer que isso não influencia na sexualidade da criança, pelo contrário ajuda a termos um mundo cada vez melhor”, relata a psicóloga.
A falta de aceitação só traz sofrimento para todos os componentes da família, Tatiane indica que quando os pais desconfiarem que tem um filho homossexual, tenham calma, e não se desesperem, caso a família tenha dificuldade de aceitar o mais indicado é que ela procure um auxilio psicológico.



