Naquela manhã fria de garoa encardida, típica do Norte Pioneiro, ninguém entendeu nada quando apareceu um caixão no trevo de entrada de Quatiguá. Não era qualquer caixão. Era um caixão elegante. Madeira brilhando mais que carro de vereador em época de eleição. Alça dourada. Estofado vermelho-sangue. Uma verdadeira suíte premium da vida eterna, encostada justamente entre o coração do letreiro “Eu ❤ Quatiguá”. Parecia decoração temática. Parecia instalação artística. Parecia licitação suspeita. Mas não. Era um caixão.
Isso tem dedo do Zé do Caixão… decretou um senhor na Padaria Pão Quente, segurando um pão francês e um pingado como quem segura provas irrefutáveis.
E o mais estranho: ninguém viu quem deixou aquilo ali.
Às seis da manhã já tinha aposentado fotografando. Às sete surgiu grupo de oração. Às oito alguém jurou que era marketing de funerária. Às nove apareceu um estudante de artes dizendo que aquilo representava “a morte simbólica do interior diante da modernidade líquida”. Mandaram ele ir carpir um lote.
Em Siqueira Campos, a notícia chegou mais rápido que boleto vencido.
— Isso tem dedo do Zé do Caixão… decretou um senhor na Padaria Pão Quente, segurando um pão francês e um pingado como quem segura provas irrefutáveis.
E não é que fazia sentido?
Dias antes, moradores juram ter visto um homem alto caminhando pelas cidades do Norte Pioneiro. Vestia preto da cabeça aos pés. Cartola. Capa longa. Unhas enormes. Olhar de quem já discutiu filosofia com o próprio Diabo. Passou por Salto do Itararé, tomou café em Santana do Itararé, assustou duas crianças em Wenceslau Braz sem sequer abrir a boca e, em Quatiguá, pediu informação para um cachorro porque não encontrou ninguém na rua depois das oito da noite.
Mas foi em Quatiguá que ele pareceu feliz.
Entrou num barzinho de sinuca torta, pediu cachaça, comeu torresmo, ouviu moda de viola desafinada por um homem chamado Marquinhos do Gás e teria dito a frase mais improvável da história do horror nacional:
— O inferno jamais produziria um café tão bom quanto este Café Norte Velho…
O dono do bar quase chorou de emoção.
Naquela noite, moradores juram ter ouvido gargalhadas perto do cemitério municipal. Outros disseram que viram uma silhueta caminhando lentamente pela cidade, carregando algo pesado nas costas. Uma senhora afirmou que o vulto parou diante do letreiro da cidade e ficou admirando o coração vermelho.
— Até o Zé do Caixão precisa de amor, comentou ela no Facebook.
Recebeu cento e quarenta e duas curtidas.
Na manhã seguinte, o caixão apareceu. Bonito. Impecável. Misterioso.
A polícia investigou. A prefeitura retirou. Os curiosos fizeram selfie. Uma influencer local gravou TikTok dançando na frente do caixão ao som de sertanejo remixado com música de terror. O vídeo teve quarenta mil visualizações e sete ameaças de exorcismo nos comentários.
Mas a verdade só surgiu dias depois.
Um caminhoneiro contou ter dado carona para um homem estranho perto da divisa do Paraná. Vestia preto. Tinha olhos fundos. Falava pouco. Carregava apenas uma mala pequena e um cheiro leve de vela derretida. Durante a viagem, o sujeito olhou pela janela, suspirou profundamente e disse:
— Maldição… esqueci meu caixão em Quatiguá.
O caminhoneiro riu. Achou que era brincadeira. Até perceber um detalhe no banco do passageiro: um cartão velho, amarelado, quase apodrecendo.
Nele estava escrito: Zé do Caixão.
No verso, com letra torta e tinta borrada, havia apenas uma frase:
“Volto buscar depois da Festa do Peão.”
E dizem que, até hoje, em noites de garoa fina, quem passa pelo trevo de Quatiguá consegue ouvir uma voz grave soprando no vento:
— Eu amo caixão…”


