Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
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Quando me mudei para o Paraná, passei a explorar a cidade com o olhar curioso de quem busca pertencimento. Caminhava pelos bairros, observava as pessoas, absorvia detalhes, pequenos sinais que, aos poucos, vão nos dizendo que estamos, enfim, chegando a algum lugar. Até que, em um desses dias, algo me chamou atenção.
Um espaço repleto de itens antigos. Instrumentos musicais pendurados, armas de outros tempos, utensílios de fazenda… Era como atravessar uma porta invisível e entrar em um universo onde o passado ainda respirava. Não pensei duas vezes: entrei.
Tomado pelo entusiasmo, comecei a olhar tudo, tocar, sentir o peso da história nas mãos. Cada objeto parecia carregar uma narrativa silenciosa, esperando alguém disposto a escutá-la. E ali, sentado, com um sorriso tranquilo, estava um senhor, um jovem senhor, me observando com a serenidade de quem já viu muita coisa, talvez até mais do que o tempo costuma permitir.
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Perguntei o preço de algumas peças.
— Não está à venda.
Insisti, curioso:
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— E esse contrabaixo?
— Também não.
Foi então que caiu a ficha:
— Mas isso aqui não é uma loja?
Ele sorriu, com uma calma que só quem entendeu o valor das coisas essenciais possui:
— Não, parceirinho… essa é a minha casa.
Foi assim que conheci uma das figuras mais folclóricas e queridas de Siqueira Campos: Tião Albino.
Sebastião Antônio Gonçalves Sobrinho, seu nome de batismo, nasceu em Siqueira Campos no dia 20 de janeiro de 1971, carregando no próprio nome uma homenagem familiar. Filho do saudoso José Albino e de Antônina Alves de Souza, é o terceiro de quatro irmãos: Fátima Rodrigues, Sandra Lima e Renato Gonçalves.
Desde cedo, já demonstrava aquilo que o tempo só fez crescer: um olhar atento para o valor das coisas e das pessoas. Ainda muito pequeno, sua irmã mais velha o levava no colo até o chafariz da praça para molhar os pés, e ali, mesmo antes de dar os primeiros passos, ele já revelava uma alegria simples, quase simbólica, como quem entende a beleza das pequenas experiências.
O apego ao passado também veio cedo. Ainda menino, dizia ao pai: “guarda isso de lembrança”. Era o início de uma vocação silenciosa... a de preservar histórias.
Na adolescência, outro traço marcante se consolidou: a generosidade. A escola chegou a chamar sua mãe para entender por que o “Tiãozinho” levava tanto lanche. E a resposta era tão simples quanto grandiosa: ele não se conformava em ver os colegas sem comer. Preparava mais todos os dias, só para poder dividir.
Filho de comerciantes, ligados ao beneficiamento de arroz e ao açougue, cresceu ajudando a família e aprendendo, desde cedo, o valor do trabalho. Aos 12 anos, mudou-se para Curitiba, a convite da irmã mais velha. Lá, estudou, trabalhou e alimentou o desejo de crescer. Mas havia algo maior chamando: o sonho de voltar para sua terra.
E ele voltou.
Voltou com a mesma essência, talvez ainda mais forte. Ao vender sua casa em Curitiba, por exemplo, fez questão de instalar grades por toda a residência antes de entregá-la, pensando na segurança da família que iria morar ali. Sem custo, sem anúncio, sem esperar nada em troca.
Histórias assim se repetem. São incontáveis às vezes em que ajudou pessoas na estrada, socorreu motoristas com carros quebrados ou sem combustível, estendeu a mão sem perguntar quem era. Já em Siqueira Campos, abriu diversos comércios e, muitas vezes, vendeu produtos abaixo do valor, não por estratégia, mas por empatia.
Um coração maior que ele mesmo.
Hoje, Tião Albino é mais do que um colecionador de objetos: é um colecionador de relações. Sua casa, repleta de relíquias, não é um museu, é um ponto de encontro. Um lugar aonde as pessoas chegam para negociar, mas acabam ficando para conversar. Muitos o procuram não apenas para “fazer rolo”, como ele gosta de dizer, mas para pedir conselhos sobre negócios e até sobre a vida.
Desde aquele primeiro encontro, só ouvi confirmações daquilo que senti: Tião Albino é unanimidade. Daquelas pessoas raras, que carregam um carisma natural, um coração largo e uma presença que agrega. Onde chega, cria laços. Onde está, há conversa, riso e acolhimento.
A gente fala tanto sobre preservar a história, museus, arquivos, registros… mas, às vezes, esquece que ela também vive nas pessoas. Nos gestos simples, nos encontros despretensiosos, nos espaços que não têm placa na porta, mas guardam mais memória do que muitos acervos oficiais.
Tião Albino é isso: um guardião vivo.
Guardião da história, das amizades, das lembranças. Seja num churrasco, num abraço ou num aperto de mão firme, daqueles que dizem muito sem precisar de palavra alguma.