Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
Quem me conhece sabe muito bem que, por mais eclético que eu seja, por mais que o meu trabalho me obrigue a conviver com estilos que muitas vezes não me emocionem, como é o caso do sertanejo universitário e do funk brasileiro, existe um território ao qual sempre retorno. Um lugar quase instintivo. O Heavy Metal. E quanto mais pesado e complexo, melhor. Mas antes de qualquer definição, sou um pesquisador musical. Alguém que busca o que está além da superfície, que prefere bandas que cantam em suas línguas nativas, que incorporam elementos folclóricos, que não se dobram à lógica da produção em massa.
Dentro do universo do rock, pouco ou quase nada me desagrada, talvez porque eu tenha aprendido a fugir do óbvio. Os chamados “lados A” raramente me interessam. O que me move é aquilo que está escondido, seja pela preguiça moderna de procurar, seja pela obscuridade imposta por um mercado que decide o que deve ou não ser ouvido. Existe uma camada inteira de arte soterrada, esperando ser descoberta. E é justamente daí que nasce o meu desejo de fazer rádio. De ter um programa onde eu possa tocar o que as outras emissoras não tocam. Mostrar que a arte não é datada, não é feita para agradar e não precisa ser confortável. A arte precisa ser verdadeira. E, muitas vezes, precisa ferir.
Foi nesse caminho, entre buscas e descobertas, que tive a honra de conhecer a banda The Electric Candles. Mais do que isso: conhecer os irmãos que a formam, trocar ideias, conversar sobre música, estética e tudo aquilo que envolve o fazer artístico. São pessoas extraordinárias, comprometidas com o que fazem de uma forma que vai além do som. Existe ali uma construção estética muito clara, uma identidade que não se rende, que não se dilui. E isso, hoje, é raro. Foi um prazer imenso poder levar o som deles ao meu programa e abrir esse espaço para que mais pessoas tenham acesso ao que eles produzem.
A história da banda começa no interior do Paraná, em 2005, ainda sob o nome The Grains, com Duda no baixo e os irmãos Douglas Isac, na guitarra e voz, e Diogo Isac, na bateria. Depois de alguns shows e das primeiras gravações, o trio decidiu ir além e mudou-se para São Paulo em 2007, mergulhando de vez na cena underground. Foi ali, na resistência, na insistência e na vivência real da música, que a identidade da banda começou a se consolidar. Em 2013, com a saída de Duda, o baixo passou a ser ocupado por DMNT, músico já experiente da cena punk paulista, e a banda assumiu definitivamente o nome The Electric Candles.
O som que constroem é um verdadeiro encontro de caminhos. Há influências claras do rock dos anos 60 e 70, mas também da new wave, do punk, do grunge, do pós-punk e do rock de garagem. É uma mistura que carrega peso, mas também atmosfera. Que transita entre o caos e a contemplação. Essa diversidade pode ser sentida no EP “Padriño”, lançado em 2023, mas gravado entre 2016 e 2017 no já lendário Estúdio Noise Terror. São seis faixas que caminham entre o psicodélico e o grunge, com passagens pelo folk e pelo rock clássico, criando uma experiência que não se limita a ser ouvida... ela precisa ser atravessada.
Nos últimos anos, a banda também investiu em sua presença audiovisual, com os videoclipes de “Forgotten Song”, “Hearts for Damnation” e “My Name Is Wrong”, e já prepara novos lançamentos, incluindo o EP “Frontier”, previsto para 2026. Mas mais do que qualquer planejamento, o que sustenta The Electric Candles é a chama. Uma chama que resiste, que insiste, que ilumina mesmo em tempos onde tudo parece raso e descartável.
Em um cenário onde a música muitas vezes é tratada como produto, encontrar artistas comprometidos com a essência da arte é quase um ato de resistência. E talvez seja justamente isso que ainda nos mantém em movimento. Porque, no fim, é na escuridão que a gente encontra o que realmente importa. E enquanto houver som, enquanto houver verdade, enquanto houver essa chama acesa, ou essa vela, ainda haverá caminhos a serem percorridos.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

