DA REDAÇÃO - FOLHA EXTRA
Sem nunca descobrir o paradeiro do filho, morreu nesta terça-feira (24), aos 82 anos, Arlete Caramês — uma das vozes mais emblemáticas do país na luta por crianças desaparecidas. Mãe de Guilherme Caramês Tiburtius, que sumiu em julho de 1991, em Curitiba, ela transformou a dor pessoal em uma causa pública que impactou milhares de famílias brasileiras.
O desaparecimento do menino, então com apenas 8 anos, marcou o início de uma trajetória de ativismo que atravessou décadas. Guilherme foi visto pela última vez enquanto andava de bicicleta no bairro Jardim Social, na capital paranaense. O caso nunca foi solucionado, e nem o garoto nem a bicicleta foram encontrados.
A partir daquele momento, Arlete passou a dedicar a vida à busca pelo filho e, ao mesmo tempo, ao apoio a outras famílias que enfrentavam o mesmo drama. Em 1992, fundou o Movimento Nacional da Criança Desaparecida do Paraná (CriDesPar), uma organização voltada à prevenção e localização de crianças desaparecidas. A iniciativa ganhou projeção nacional e contribuiu para mobilizar autoridades e a sociedade civil.
O trabalho incansável também teve reflexos diretos nas políticas públicas. Em 1995, o ativismo liderado por Arlete ajudou a viabilizar a criação do Serviço de Investigação de Crianças Desaparecidas do Paraná (Sicride), estrutura que permanece em funcionamento até hoje e é considerada a primeira e única do Brasil dedicada exclusivamente a esse tipo de investigação.
Além disso, sua atuação foi fundamental para a aprovação de mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente, em 2005. A legislação passou a garantir que buscas por crianças desaparecidas sejam iniciadas imediatamente após o registro do caso, sem a necessidade de aguardar 24 horas. A norma também determinou a comunicação rápida a portos, aeroportos, rodovias e empresas de transporte interestadual e internacional, ampliando as chances de localização.
A causa social impulsionou a trajetória política de Arlete. Nos anos 2000, foi eleita vereadora de Curitiba com 14.160 votos, a segunda maior votação daquele pleito. Durante o mandato, apresentou propostas voltadas à proteção da infância, como a divulgação de pessoas desaparecidas em canais oficiais, a criação de fichas de identificação para crianças em hotéis e a exigência de documentos na matrícula escolar.
Em 2002, foi eleita deputada estadual, com 22.736 votos, passando a atuar na Assembleia Legislativa do Paraná. No cargo, manteve como prioridade o apoio às famílias atingidas por desaparecimentos e a defesa de políticas públicas voltadas à infância.
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Mesmo após mais de três décadas de buscas, Arlete nunca encontrou respostas sobre o destino de Guilherme. Ainda assim, sua história se tornou símbolo de resistência e mobilização social. Ao transformar uma tragédia pessoal em luta coletiva, ela ajudou a dar visibilidade a um problema muitas vezes silencioso e deixou um legado que segue impactando a proteção de crianças e adolescentes no Brasil.


