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Dirceu Rosa: a música que nasce da fé e permanece no povo

A espiritualidade e a simplicidade poética na obra de Dirceu Rosa.

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

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Falar de Dirceu Rosa e, consequentemente, do grupo Pratas do Sul, é para mim uma tarefa simples... quase afetiva demais para caber apenas em palavras. Além de amigo desse artista fantástico, sou também um admirador profundo de sua trajetória. Ao longo dos últimos seis anos construímos uma amizade honesta, sincera, daquelas que não dependem da presença constante para existir. Porque estar perto nem sempre é algo físico; é saber que torcemos verdadeiramente um pelo outro, mesmo quando os caminhos seguem ritmos diferentes.

Tenho o prazer de guardar em minha coleção três LPs de Dirceu Rosa. Em uma de nossas entrevistas, pedi que os autografasse. Mais do que um gesto de fã, foi um momento de reconhecimento diante de alguém cuja contribuição cultural ultrapassa gerações. Dirceu Rosa é o tipo de ser humano para quem qualquer homenagem ainda parece pequena diante de tudo aquilo que ofereceu ao nosso município.

Escritor, poeta, músico, compositor, instrumentista e, sobretudo, um verdadeiro fazedor de cultura, foi de suas mãos que nasceram os arranjos do hino de Siqueira Campos, hoje compreendido como uma obra construída a três mãos: Joaquim Vicente de Souza, autor da letra; Frei GabrielÂngelo, responsável pela música; e Dirceu Rosa, que deu à composição sua identidade sonora definitiva através dos arranjos que ainda ecoam em nossa memória coletiva.

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Da mesma forma, o hino do Senhor Bom Jesus da Cana Verde, entoado por milhares de fiéis e peregrinos que todos os anos, em 6 de agosto, visitam nossa cidade, permanece gravado no coração do povo. Uma música que deixou de ser apenas composição para tornar-se devoção viva.

E a história continua sendo escrita. Em 2021, dentro da gruta do Santuário São Miguel Arcanjo, surgiu o primeiro esboço do que viria a ser mais um marco em sua trajetória. Ali nasceu a primeira frase. Mais tarde, já em casa, sentado em seu estúdio, em cerca de vinte minutos, a música estava pronta... como se já existisse antes, aguardando apenas o momento certo para ganhar forma.

A composição em homenagem ao Santuário São Miguel Arcanjo rapidamente ultrapassou fronteiras, alcançando números impressionantes: mais de 271 mil acessos, cerca de 10 mil compartilhamentos e aproximadamente 12.500 curtidas. Números que revelam algo maior do que estatísticas digitais: um pedaço da alma siqueirense viajando mundo afora.

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Porque Dirceu Rosa é exatamente isso, a tradução sensível do que temos de melhor.

Seu poema-canção São Miguel Arcanjo dialoga de maneira quase intuitiva com duas grandes tradições da literatura brasileira. Há nele a intensidade espiritual do Barroco, perceptível na súplica humana diante do divino “cuida de mim agora, afasta toda maldade”. O homem aparece consciente de sua fragilidade e busca proteção celestial, característica marcante da estética barroca, onde fé e temor coexistem e o sagrado surge como resposta às inquietações do mundo terreno.

Ao mesmo tempo, a obra apresenta traços claros do Arcadismo pela simplicidade da linguagem, pela musicalidade direta e pelo desejo de harmonia espiritual. Não há excesso ornamental; há clareza, equilíbrio e serenidade. O eu lírico procura um caminho reto, guiado pela luz e pela fé, transformando a oração individual em experiência coletiva. O refrão repetido aproxima a canção da tradição popular e comunitária, permitindo que o poema deixe de ser apenas texto e se torne canto compartilhado.

Assim, entre o drama barroco e a serenidade arcadista, Dirceu Rosa constrói uma obra que une erudição e povo, estética e devoção, arte e pertencimento.

Dirceu Rosa é, sem dúvida, um ser abençoado... ou, como diria o escritor Mia Couto, um homem abenSonhado.

E talvez seja esse o maior destino da verdadeira arte: deixar de pertencer ao artista para passar a pertencer ao povo.

Obrigado por tudo, meu amigo.

Porque quando um artista como Dirceu Rosa compõe, não nasce apenas uma música, nasce memória, identidade e permanência.

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