Há fatos que revoltam não apenas pela brutalidade em si, mas pelo reflexo que colocam diante do nosso dia-a-dia. O assassinato do cão Orelha, em Santa Catarina, cometido por adolescentes de “classe média”, alguns deles, com “viagem marcada” para a Disney, não é apenas um episódio isolado de crueldade contra um animal. É um sintoma. Um alerta vermelho piscando para quem ainda insiste em acreditar que dinheiro, escola particular e passaporte carimbado são sinônimos automáticos de caráter.
Durante anos, repetimos quase como um mantra que a violência nasce da falta: falta de renda, de acesso, de oportunidade, de educação. Mas o caso Orelha desmonta essa narrativa confortável até agora. Ali não havia falta de nada. Havia algo mais perigoso: a falta de empatia, falta de caráter.
E essa ausência não surge do nada. Ela é construída, ou melhor, deixada de ser construída, ao longo do tempo. No ambiente familiar, quando limites são substituídos por “passar a mão na cabeça”, a chamada permissividade. Na escola, quando o desempenho “a nota alta” vale mais que a formação ética. Na sociedade, quando ensinamos, que quem tem privilégios sempre encontrará uma saída, uma desculpa esfarrapada, como uma viagem para a Disney.
Não se trata de criminalizar uma classe social, mas de assumir que o problema. A diferença é que, no topo, a falta de empatia costuma vir acompanhada de uma perigosa sensação de impunidade. O adolescente que nunca foi contrariado, que nunca lidou com frustração real, que nunca foi responsabilizado de forma firme, cresce acreditando que o mundo existe para servi-lo, inclusive vidas que não considera “importantes”.
O mais assustador não é o ato em si, mas a frieza com que ele é cometido. A violência gratuita revela um distanciamento completo da dor do outro. E aqui cabe a pergunta que muitos evitam: estamos educando filhos ou apenas gerenciando currículos, viagens e bens? Porque a viagem não foi cancelada para a responsabilização dos atos?
Mas enquanto isso aqui no Brasil, as autoridades policiais aguardam esses lindos adolescentes acabarem suas férias nos Estados Unidos e voltarem, quem sabe de primeira classe, para responder pelos seus atos.

