Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
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Há 49 anos uma das obras mais importantes da história da música foi gravada. Animals é o décimo álbum de estúdio da banda inglesa Pink Floyd, lançado em 21 de janeiro de 1977, produzido pela própria banda em seu novo estúdio, o Britannia Row, em Londres. O disco dá continuidade às composições longas já presentes em Meddle (1971) e Wish You Were Here (1975).
Com exceção de “Dogs”, coescrita por David Gilmour, as faixas são de Roger Waters. Richard Wright participa menos do que em trabalhos anteriores, e Animals acaba sendo o primeiro álbum do Pink Floyd a não trazer crédito de compositor para ele. Um detalhe que diz muito sobre o momento da banda.
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Livremente inspirado em A Revolução dos Bichos, de George Orwell, o álbum usa animais para representar classes sociais: os cães predadores, os porcos despóticos e impiedosos, e as ovelhas sem mente, sem questionamentos. Enquanto a obra de Orwell se concentra no stalinismo, Animals faz uma crítica direta ao capitalismo. Aqui, as ovelhas eventualmente se levantam contra os cães. O disco nasce de canções inicialmente desconexas, reunidas depois num conceito que descreve a decadência social e moral da sociedade, comparando a condição humana à de meros animais.
Tenho praticamente a mesma idade do álbum... e, diga-se de passagem, é um dos meus preferidos do Pink Floyd, seguido de perto pelo também incrível Wish You Were Here. Na verdade, este talvez seja o meu preferido, mas esta crônica é uma reverência: ao Pink Floyd, a George Orwell e também a Chico Buarque. Três artistas que conseguiram sintetizar problemas sociais e conflitos morais em suas obras de forma clara, dura e necessária.
Animals, A Revolução dos Bichos e Fazenda Modelo dialogam entre si. Há facilmente aí uma tese, se já não houver, de Literatura Comparada.
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Escrevo este texto ouvindo meu vinil, datado e vivo desde 1977, completando agora 49 anos. Lembro perfeitamente de quando meu irmão mais velho colocava o bolachão para rodar e os sons de porcos e cães se espalhavam pela casa. Naquele tempo, eu não fazia ideia de quem era Orwell. Chico, sim. Mas essa associação literária só me veio à mente décadas depois.
Veio quando me vi vivo no chiqueiro do mundo. Com cães alimentando porcos e tratando-os como pérolas. É incrível como a história insiste em nos revelar quem somos, e o quanto não aprendemos com ela. Isso me fez lembrar o clássico V de Vingança, de Alan Moore, e o quanto estamos precisando de socorro.
Ficam aqui minhas indicações de audição e leitura. E que lutemos para que as explosões sejam apenas de arte, as divisões apenas de comida e amor, e que a dor seja somente a da despedida... seja de quem amamos, seja de nós mesmos.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.