Por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor
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Acordei inquieto nesta manhã.
Entre o despertar e o primeiro gole do café, entendi o porquê. Em julho, dia nove, farei 48 anos. No mesmo dia, minha esposa e eu completaremos 28 anos juntos, ela me pediu em namoro justamente no dia do meu aniversário, por incrível que pareça. Mas isso, agora, é quase detalhe. O que realmente me inquieta é o tempo. Ou, talvez, o que fizemos dele. Ou o que deixamos que ele fizesse conosco.
Quando falo de tempo, falo dessa mania contemporânea de tornar tudo supérfluo, datável, reciclável. Tudo tem prazo de validade, inclusive as pessoas, as ideias, os afetos.
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Faço parte de uma geração que viveu boa parte da vida sem internet... essa mesma que tanto nos ajuda, mas que também nos aprisiona, nos domestica e, muitas vezes, nos adoece. Usamos a tecnologia como remédio e, pior, como anestesia: uma forma eficiente de manter crianças quietas por um tempo determinado, caladas, sem joelhos ralados e sem histórias para contar.
Os celulares, dotados de centenas de funcionalidades, quase não são usados para aquilo que lhes deu nome: telefonar. Ligar para alguém e gastar tempo conversando virou exceção. Hoje tudo se resume a áudios acelerados e mensagens de texto com um português cada vez mais frágil. O telefone com fio, preso a um lugar específico da casa, não nos dava mobilidade, é verdade, mas nos oferecia algo raro hoje em dia: presença.
Pensávamos antes de falar.
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Escolhíamos as palavras.
Havia silêncio entre uma frase e outra.
As casas também mudaram. Alpendres, varandas, colunas, telhas de barro, “eira, beira e tribeira” deram lugar a linhas geométricas, tons de cinza e uma estética sem alma. Arrisco dizer que há mais poesia no Brutalismo Russo do que em muita arquitetura atual. Até o jardim foi empurrado para dentro de casa, comprimido em poucos metros quadrados, mais para ocupar um espaço “morto” do que por verdadeira preocupação com harmonia.
Perdeu-se o ato de ouvir os dois lados de um disco, de sentar na sala com amigos, observar capas, ler encartes, gravar uma fita K7, discutir letras, rir com uma caneta Bic na mão rebobinando histórias e sons.
Os carros seguiram o mesmo caminho.
Antes, cores.
Muitas cores. Hoje, preto, branco e prata, como se a vida precisasse ser discreta até no asfalto.
Os streamings nos roubaram o ritual da locadora na sexta-feira à noite, a escolha cuidadosa de dois filmes em VHS ou DVD, a expectativa da locação grátis. Escolher era um ato importante, quase solene, porque dele dependia o humor do fim de semana. Errar no filme era trágico. Hoje assinamos várias plataformas para ter tudo... e, paradoxalmente, não ter nada.
E ainda nos gabamos disso.
Na música, confesso, ainda sofro. Vejo listas das “mais ouvidas do ano”, acompanhadas do número de repetições da canção preferida, como se isso fosse mérito. Perdeu-se o ato de ouvir os dois lados de um disco, de sentar na sala com amigos, observar capas, ler encartes, gravar uma fita K7, discutir letras, rir com uma caneta Bic na mão rebobinando histórias e sons.
Hoje não se ouve mais o lado B de nada.
Nem da música, nem da vida.
Talvez eu esteja ficando velho e ranzinza.
Talvez seja apenas nostalgia.
Mas tenho saudade de quando éramos mais saudáveis e, arrisco dizer, mais felizes. Um tempo em que a aparência não determinava o que comer, onde dormir ou como existir. Um tempo sem vitrines midiáticas tóxicas, sem reality shows ditando comportamentos.
As bancas de jornal estão desaparecendo, assim como o hábito de abrir um jornal impresso e lê-lo com uma xícara de café ao lado.
Tenho fé de que um dia isso mude. Mas suspeito que não estaremos aqui para ver o arrependimento tecnológico nos conduzir de volta ao analógico do viver.
É isso.
Desculpe.
Eu me calo.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.