por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura @flaviomelloescritor
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Confesso: estou ficando cada dia mais preocupado. Meus heróis estão morrendo. Sim, meus heróis... aqueles que habitaram o território quase sagrado da arte e da contracultura, onde a rebeldia ditava a moda, o som, o gesto e até a ideologia.
Neste 8 de janeiro, navegando pela internet, como de costume, ao som dos meus velhos discos de vinil, deparei-me com uma dessas coincidências que parecem acenos do destino: Elvis Presley e David Bowie nasceram no mesmo dia. Dois gigantes. Dois ícones absolutos da cultura mundial. Um coroado rei por multidões; o outro, camaleão, responsável por fazer a moda, a estética e a identidade explodirem em possibilidades, empurrando o mundo alguns passos adiante rumo à liberdade individual.
Sou fã confesso de ambos.
Eles fizeram parte da minha vida. Saber que dividimos o mesmo espaço-tempo que figuras assim é motivo de orgulho, quase um privilégio histórico. Não vivi o tempo de Elvis. Nasci em 1978. Mas vivi Bowie. Conheci-o à distância, com sua música atravessando os corredores da casa da minha infância. Depois veio Labirinto. E ali, definitivamente, me apaixonei.
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Hoje percebo, com certo espanto, que meus artistas preferidos das décadas de 60, 70, 80 e até 90 estão envelhecendo... e partindo. Nunca imaginei que isso fosse possível. A arte nos engana: perdemo-nos na criação e esquecemos que o criador também é carne, tempo e finitude.
Meus heróis estão indo. Em 2025, a morte de Ozzy Osbourne calou o mundo da música. E nem vou me estender falando de entidades como Milton Nascimento ou Chico Buarque. Ou mesmo de Bruce Willis. Dói perceber que eles também podem morrer.
Mas pensem: que honra viver no mesmo tempo que Milton Nascimento. Indiretamente, estaremos nos livros de História quando esses nomes forem citados. Nós, anônimos, seremos nota de rodapé do tempo, mas estivemos aqui.
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O dia 8 de janeiro, portanto, não é uma data qualquer na história da música e da cultura. É o dia em que nasceram Elvis Presley (1935) e David Bowie (1947), dois artistas que, cada um à sua maneira, mudaram para sempre a forma como o mundo ouve, vê e sente a arte.
Elvis Aaron Presley, nascido em Tupelo, no Mississippi, veio de origem humilde, criado entre o gospel, o blues e o country do sul dos Estados Unidos. Sobrevivente solitário de um parto de gêmeos, cresceu em meio à pobreza e ao trabalho duro até que a música lhe abriu caminho. Seu rebolado exagerado, sua voz carregada de emoção e sua presença cênica romperam barreiras raciais, culturais e comportamentais. Tornou-se o “Rei do Rock” não apenas pelo sucesso estrondoso, mas por inaugurar uma nova era da cultura pop. Mesmo após sua morte, em 1977, permanece como um dos maiores ícones do século XX.
David Bowie, nascido em Londres, nunca coube em um rótulo. Chamado de “camaleão”, atravessou estilos como folk, rock, pop, soul, jazz experimental e eletrônico, reinventando-se a cada fase. Mais do que músicas, Bowie criou universos. Personagens como Ziggy Stardust e Aladdin Sane misturavam som, figurino, maquiagem, performance e identidade, fazendo da arte um território de liberdade absoluta. Sua obra ensinou que mudar também é uma forma de permanecer.
Dois nascimentos no mesmo dia. Dois caminhos distintos. Um mesmo impacto: transformar a música em linguagem cultural, estética e existencial. Elvis nos ensinou a quebrar padrões com o corpo. Bowie, com a alma.
Ambos continuam vivos, não nos palcos, mas na memória, no imaginário e naquilo que ainda ousamos criar. Nós somos como calçadas: simples, gastas, às vezes esquecidas… mas por onde essas entidades um dia caminharam.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.