por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
Há quem ache, erroneamente, que ser palhaço é algo ruim. Que ser chamado de palhaço é ofensa, desrespeito, deboche. Há quem ignore, por ignorância mesmo, que palhaço é Arte, é profissão, é missão. Tem gente que pensa que ser palhaço é só pintar o rosto e fazer peraltices no picadeiro, quando, na verdade, ser palhaço é ser filósofo: filosofar as dores da alma enquanto tropeça no ar e transforma tragédia em riso.
É analgésico profundo das dores humanas, físicas e cronológicas.
Ser palhaço é ser sociólogo e, nos malabares da vida, nivelar conflitos sociais, riquezas, trabalhadores e patrões, todos iguais, todos com pipoca na mão, todos sentados diante do mesmo espetáculo. É ser médico e curar sem bisturi; operar com tinta, com balões, com o gesto que devolve ar a um peito cansado. É analgésico profundo das dores humanas, físicas e cronológicas.
Ser palhaço é ser professor, e nos ensinar, entre uma gargalhada e outra, sob a luz quente do palco, que a vida é para ser vivida, sentida, celebrada. É ser arauto, narrador, poeta do corpo e da queda. É transformar o mundo num grande circo de amor.
Por isso, me dói profundamente ouvir alguém usar “palhaço” como insulto. Ledo engano. Chamar alguém de palhaço deveria ser considerado um dos mais belos elogios que se pode oferecer a um ser humano. Mas, infelizmente, há quem não queira o espetáculo; há quem prefira tocar fogo no parquinho, ou melhor, no circo, principalmente no circo dos outros.
Eu, não.
Eu luto pelo circo.
Eu luto pelos artistas de rua, pelos malucos de br e poesia.
Eu luto ao lado dos palhaços.
E, entre as palhaçadas da vida, dedico esta crônica ao meu amigo Wiber Wlian Paz Soares, um artista que carrega no peito a tradição, a dor, a entrega e a grandeza do circo brasileiro.
Conheci o Wiber numa de suas apresentações gratuitas em Siqueira Campos. Foi ali, ainda timidamente, que começamos uma amizade. Me impressionaram seu humor ágil, sua versatilidade quase inacreditável, sua habilidade com aparelhos circenses e sua capacidade rara de transformar o impossível em cotidiano. Mas uma pergunta me inquietava: como um artista tão completo não havia despontado como merece?
Pertencente a uma das maiores famílias circenses do Brasil, a Família Robattini, Wiber nasceu em Paranaguá, em 5 de setembro de 1991. Aos oito anos, descobriu que seu sangue carregava a herança do picadeiro. Seu primeiro contato real com o circo aconteceu quando o Circo Continental Robattini passou por Wenceslau Braz, onde morava. Desde então, malabarismos, equilíbrios e sonhos se tornaram sua rotina.
Aos 14 anos, já se apresentava nos circos da região. Aos 16, atravessou fronteiras e foi morar no Circo Internacional do México, onde ficou por quase dois anos, apresentando ilusionismo, malabares, trapézio, equilíbrio, globo da morte e, claro, o início de seu inesquecível personagem: o Palhaço Salsicha.
Um acidente o afastou do circo por um tempo, mas não o afastou de sua vocação. Com a ajuda de amigos, criou a Cia de Circo do Salsicha, que cresceu, viajou por São Paulo e Paraná, apresentou peças, números, teatro, encantou cidades inteiras.
Fez parte do Circo do Beto Carrero, integrou a Seleção Brasileira de Circo, representou o país em diversas apresentações, levou sua arte até o Uruguai. Criou espetáculos próprios, como O Circo do Mazão, Ser Palhaço e Salsicha e a Banda Calypso. Montou, dirigiu, atuou. Fez do riso obra. Fez do palco lar.
Hoje, Wiber é instrutor na Escola de Circo Siqueirense, onde ensina crianças e jovens acompanhando de perto nosso trabalho na Cultura. Vê-lo ensinar é perceber a continuidade de uma tradição centenária que se recusa a morrer: a do circo que acolhe, forma, reinventa e emociona.
Tê-lo ao meu lado na gestão cultural do município foi, sem exagero, uma das melhores decisões que tomei pela minha cidade. Wiber é incrível: como artista, como palhaço, como chefe de divisão, como ser humano. Um acrobata da vida, um equilibrista da esperança, um malabarista de sonhos.
E é por isso que concluo sem titubear:
Ser chamado de palhaço deveria ser tratado como honra.
Se todos tivéssemos um palhaço dentro de nós, o mundo seria infinitamente melhor.
Esta homenagem é para ele: o amigo, o artista, o palhaço genial: Wiber Wlian Paz Soares.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.


