por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
Continua após a publicidade
@flaviomelloescritor
Na noite de 24 de novembro de 2025, a Câmara Municipal aprovou por unanimidade a lei que institui o projeto “Memória Viva: Arte e História no Cemitério de Siqueira Campos”, Projeto de Lei n° 085/2025. A aprovação marca um momento histórico para o município e reafirma nosso compromisso com a preservação da memória coletiva. Desde que assumi a direção municipal de Cultura, eu carregava o desejo de desenvolver um projeto voltado ao Cemitério Municipal. Durante muito tempo trabalhei praticamente sozinho, conciliando sonhos e urgências, e muitas ideias precisaram aguardar pacientemente o momento certo de nascer. Ainda assim, nunca deixaram de existir: estavam ali, como sementes silenciosas à espera da chuva.
Continua após a publicidade
Lembro-me das primeiras visitas técnicas realizadas com o então estagiário da Cultura, Maicon Couto, cuja dedicação foi fundamental. A partir daquelas observações iniciais surgiu o primeiro levantamento de personalidades siqueirenses que poderiam compor um estudo histórico. Em seguida, o trabalho ganhou profundidade com o historiador César Caetano, que ampliou o mapeamento, identificou dezenas de nomes e sepulturas e construiu a base que hoje sustenta o projeto.
Em outra ocasião, durante o rodeio municipal, encontrei o senhor Luiz Carvalho. Em conversa com o prefeito Germano e o vice-prefeito Paulo, ele recordou o antigo desejo do Frei José Maria da Silva, a criação de uma lei municipal para preservar túmulos históricos. Essa memória reacendeu uma ideia que já pulsava há anos e abriu caminho para que a proposta finalmente tomasse forma.
É verdade que iniciativas desse tipo existem em muitas cidades, no Brasil e no exterior, mas em Siqueira Campos elas se tornam especialmente necessárias. Entre os caminhos silenciosos do nosso cemitério repousam não apenas entes queridos, mas também figuras que ajudaram a construir nossa identidade são elas: artistas, professores, prefeitos, escritores, religiosos, líderes comunitários e cidadãos que, com ações grandes ou pequenas, moldaram a história local. Como professor de literatura em São Paulo, levei centenas de alunos ao Cemitério da Consolação, um museu a céu aberto. Sempre desejei que a cidade de Siqueira Campos onde renasci também pudesse oferecer um mergulho semelhante em sua própria história. Agora, esse desejo se concretiza.
Continua após a publicidade
O projeto Memória Viva nasce com a proposta de unir turismo cultural, arte tumular, história local e educação patrimonial, transformando o cemitério em um espaço de visitação sensível e estruturado. Não se trata de curiosidade mórbida, mas de reverência, contemplação e aprendizado, como ocorre em cidades como São Paulo, Curitiba e Buenos Aires.
A lei aprovada estabelece diretrizes claras: valorizar personalidades históricas sepultadas no município, preservar e restaurar túmulos de relevância artística e cultural, instalar placas biográficas com QR Codes, criar visitas guiadas, implantar um mapa turístico na entrada do cemitério, produzir materiais impressos e digitais, registrar fotograficamente o patrimônio e formar um Comitê de Memória e Arte Tumular. Agora, inicia-se a etapa de diálogo e autorização com as famílias, gesto fundamental para que cada homenagem seja também um ato de respeito.
A aprovação da lei transforma nosso cemitério em um espaço de arte, educação e cidadania, onde a vida continua falando discretamente por meio da memória. Preservar a história não significa olhar para trás, mas permitir que o passado siga iluminando os caminhos que ainda vamos percorrer.