Apenas nas 22 cidades atendidas pelo 2º Batalhão da Polícia Militar de Jacarezinho, diariamente são registrados dezenas de boletins de ocorrência envolvendo violência doméstica na região do Norte Pioneiro. Já pensou apanhar, ser abusada ou ter a mente destruída todo santo dia? Apesar de horrível, esta é a realidade vivida por muitas mulheres.
Elizabeth, nome fictício dado a uma moradora da região que concedeu entrevista à Folha Extra, contou como foi sobreviver a um ano e meio nesta situação. Seus relatos são carregados de dores e mágoas de uma pessoa submetida a violência física e psicológica praticadas pelo seu ex-companheiro.
“Queria separar e ele colocava cadeado nas janelas pra me trancar em casa, cuspia na minha cara e batia na cabeça, porque aí não aparecia as marcas. Ele não deixava eu ir na casa da minha mãe para que assim eu não pudesse contar para ela. Quando eu estava perto de qualquer pessoa ele ficava vigiando para ver se eu não ia falar nada”, relata.
A vítima também falou sobre os abusos que sofreu durante este tempo que foi refém do relacionamento abusivo.
“Às vezes eu chorava, tomava banho de nojo, mas tinha que ter relações sexuais obrigada porque ele me pegava a força. Até mesmo depois de separados, um dia ele foi até minha casa e quando eu vi ele já estava tirando meu shorts”, relembra angustiada.
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Em meio aos abusos e agressões, Elizabeth conta que uma das piores coisas que sofreu foi a pressão psicológica. “Me batia e depois de uns cinco minutos vinha pedindo perdão, chegava a chorar dizendo que nunca mais ia fazer de novo, que ia se matar. Pegava meus filhos e quando todo mundo achava que ele levava para passear, na verdade era pra me torturar porque eu tinha medo de que ele pudesse fazer algo com as crianças, sabia meu ponto fraco”, lamenta.
“O pior era que as pessoas falavam ‘nossa como seu marido é bom’. Ele entrava no psicológico das pessoas e fazia todo mundo acreditar que ele era bom e eu que era ruim, manipulava até meus pais”, relembra.
Questionada sobre porque não denunciava o agressor, a vítima desabafou. “Às vezes as pessoas falam que a gente tem medo de denunciar, mas ninguém sabe que, além do medo, a gente sente muita vergonha daquilo que a gente passa”.
Tocando no assunto vergonha, os traumas vão ressurgindo em sua mente. “Um dia levei um soco no olho e fiquei com vergonha de contar, porque ninguém acreditava em mim, pois quem via ele na rua não sabia como era dentro de casa. Aí acabei falando que foi um móvel que caiu no meu rosto e ele ainda tirava sarro”.
Não se deixe levar pelo “em briga de marido e mulher, não se mete a colher”. Uma relação abusiva pode destruir a mente de uma pessoa e ela precisa de ajuda para que a morte não seja física nem mental. “Até hoje não consigo me relacionar com ninguém por causa dele, não tenho confiança nas pessoas mais. Sou traumatizada”, finaliza.
Maria da Penha
Apesar de causar constrangimento e até medo de uma reação ainda mais violenta por parte do companheiro, a denúncia é sempre a melhor opção para que as coisas não piorem. Em 2017, o Brasil teve 4.473 homicídios dolosos de mulheres.
Contudo, muitas mulheres não denunciam por não acreditarem que a lei seja aplicada efetivamente, o que tende a agravar a convivência com o parceiro.
Para aumentar a rigidez na aplicação da Lei 11.340, mais conhecida como Maria da Penha, o texto recebeu uma alteração em abril deste ano com sanções que tipificam o descumprimento de medidas protetivas de urgência, que podem ser estabelecidas assim que a mulher faz a denúncia.
A alteração traz uma consequência penal para o agressor que se aproximar da vítima após a medida protetiva, deixando-o sujeito à pena de detenção que varia de 3 meses à 2 anos.


