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Entre a lucidez e o abismo: um olhar sobre 4.48 psicose

Quando a arte atravessa a dor e nos devolve humanos

por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura

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@flaviomelloescritor

 

Na noite de sexta-feira, 17 de outubro de 2025, a Casa da Cultura Neuri Camargo da Silva foi tomada por uma vibração rara, dessas que não se medem em aplausos, mas em silêncios. Dentro da 3ª Semana de Arte Siqueirense, o Instituto Federal do Paraná apresentou “Psicose 4:48”, adaptação audiovisual da obra de Sarah Kane, uma das dramaturgas mais inquietas e intensas da contemporaneidade. O Curso Técnico em Teatro do IFPR, sob a direção de Antônio Rodrigues, estavam presentes também, da instituição, Millena Paduan, Bárbara Orlandini, José Eduardo e Andressa Lauren, trouxe à cena — ou melhor, à tela — uma experiência que atravessou o público como lâmina e como cura. Nada de suavidade ou alívio: o que se via era o abismo, e dentro dele, o espelho. A cada fragmento de voz, a cada silêncio, a mente humana se expunha — nua, dilacerada, mas viva.

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Foi visceral, como a arte deve ser. Uma beleza amarga, feita de cortes e revelações. Um trabalho de grande delicadeza técnica — fotografia, edição, atuações e direção em harmonia —, mas também de uma força emocional quase insuportável. E foi justamente essa intensidade que o tornou necessário. Ao final da exibição, o bate-papo com o elenco e o professor Antônio Rodrigues abriu uma fresta por onde a arte voltou a respirar junto com o público. Falou-se de dor, de saúde mental, de criação e humanidade — e percebeu-se o quanto ainda é urgente dialogar sobre o que nos torna frágeis e, portanto, humanos.

Há obras que não se assistem — atravessam-nos. 4.48 Psicose, escrita por Sarah Kane pouco antes de seu suicídio em 1999, é dessas travessias em que o verbo sangra e a linguagem se desfaz. Não há personagens, nem narrativa linear, nem cena convencional. Há apenas vozes — uma consciência em colapso que tenta, pela palavra, manter-se à tona. É o teatro que se faz espelho da mente, o texto que pulsa como ferida aberta. Em vez de representar, revela. Em vez de consolar, desnuda. Kane escreve como quem tenta sobreviver à própria lucidez. Há um brilho terrível em suas palavras, uma clareza que cega. Clarice Lispector chamaria de “instante-já”: aquele em que o ser se vê inteiro e, ao se ver, se despedaça.

Sinopse de “Psicose 4:48”

Em 4.48 Psicose, a dor não é tema — é forma. A desintegração mental reflete-se na estrutura, no ritmo, nas pausas. A gramática se parte, como o corpo. A linguagem se esfarela, e cada palavra morre para poder significar. Nietzsche escreveu que “só como fenômeno estético a vida é justificável”; Kane parece escrever desse mesmo abismo — fazendo da beleza a última tentativa de justificar o insuportável. O gesto final de Sarah não é desistência, mas denúncia: um ato extremo que transforma o corpo em palco e a morte em metáfora. Como Artaud, ela acreditava que o teatro devia ser cruel — não por sadismo, mas por verdade. Cruel é aquilo que nos obriga a ver. E 4.48 Psicose nos obriga. Obriga a olhar o sofrimento sem glamour, sem piedade, sem anestesia. É arte despida de consolo — arte como confronto.

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A videoperformance do Instituto Federal do Paraná reatualiza esse confronto. Sua leitura do texto é fiel à essência da dramaturga, mas expande a dor pela linguagem da imagem e do som. Fragmentos, sobreposições, gestos interrompidos — tudo ecoa a estrutura partida da própria obra. Há também um diálogo mudo entre Sarah Kane e Sylvia Plath, duas mulheres que transformaram a dor em poesia. Ambas entenderam que escrever é uma forma de respirar dentro da asfixia. Em 4.48 Psicose, o amor aparece como lampejo: “Eu te amei, e talvez isso tenha sido o suficiente.” Mas o amor, aqui, não salva — apenas ilumina por um instante a escuridão.

O público, diante da obra, não assiste — partilha. Cada um carrega para casa um fragmento de si que talvez não tivesse coragem de olhar antes. E talvez esse seja o papel mais profundo da arte: transformar o sofrimento individual em gesto coletivo, dar nome ao que ainda não ousamos dizer. A 3ª Semana de Arte Siqueirense mostrou, com esse encontro entre teatro, vídeo e reflexão, que a arte é um território de coragem. Foi uma honra receber o IFPR — seus alunos, seu diretor, sua entrega. A cada edição, a Semana se fortalece, renova-se, amplia suas fronteiras — e nessa, em especial, tocou onde mais doía.

Porque há momentos em que a arte precisa doer. Só assim ela cura. E quando as luzes se apagam e o público respira em silêncio, algo dentro de nós se reorganiza — como se, por um instante, tivéssemos atravessado a noite com Sarah Kane e voltássemos de lá mais conscientes da própria escuridão.

Entre a lucidez e o abismo, a arte segura a nossa mão — antes que amanheça.

 

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

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