por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
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@flaviomelloescritor
Há um instante, entre o som e o silêncio, em que tudo parece suspenso — o tempo, a respiração, o sentido. É ali que habita o trabalho de quem vive da arte e para a arte. No entanto, nesse ofício diário com a Cultura, o que mais fere não é a crítica, nem o esforço, mas o vazio: a falta de presença, a ausência do olhar.
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Dói.
Dói ver um palco inteiro preparado com cuidado, as luzes ajustadas, o cenário pronto, os ensaios concluídos, e, quando o espetáculo começa, perceber que há mais cadeiras do que aplausos, mais ecos do que vozes.
Os rostos são os mesmos — fiéis, poucos, generosos. Mas faltam os outros, os que poderiam estar e não estão. E o que mais machuca é o artista que não vê o outro artista. O que chega apenas para cumprir seu papel, apresenta-se, sorri, recolhe seus aplausos e vai embora. A arte, para alguns, termina onde termina o espelho.
Nietzsche dizia que a arte é uma ponte, mas há quem prefira transformá-la num pedestal. Talvez por isso o palco brilhe tanto e, ainda assim, pareça tão escuro. O artista cego não é o que não vê — é o que não sente o outro.
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Fico ali, entre as luzes e o som, observando o silêncio que insiste em crescer. Ele é pesado, denso, quase palpável. Os aplausos, quando vêm, soam amarelos, frágeis, distantes.
E o coração, que se acostuma a resistir, sente de novo a velha dor do vazio.
São meses de trabalho, de ideias, de cuidado, de alma entregue em cada detalhe. A divulgação vai longe — rádios, jornais, redes sociais, mensagens, convites. Tudo ecoa, mas pouco retorna.
E então, no mercado, alguém comenta, distraído: “Nesta cidade não tem nada pra fazer.” Ignoram o teatro que esteve em cartaz, o menino que cantou lindamente, a bailarina que quase flutuou, a exposição que respirava beleza. Não veem. Não procuram ver.
Como levar a montanha até quem não caminha? Ou será que caminham, mas em outra direção?
Não sei se é ignorância ou apenas desinteresse. Talvez ambas. Há aplausos que chegam de longe, de quem nunca veio. São elogios vazios, palavras que soam falsas. E o eco disso é mais triste do que o silêncio.
Às vezes me pergunto o que mais as pessoas esperam. Se o asfalto, o futebol de domingo, a cerveja e o bilhar bastam para preencher o tempo — onde cabe a arte? Será que estamos assistindo, em silêncio, ao fim da curiosidade estética? À morte da alma que se comove diante do belo?
Penso, por instantes, em voltar à sala de aula. Giz, lousa, alunos. Repetir os mesmos conteúdos, os mesmos gestos, como quem se abriga do vendaval. Mas então lembro de Clarice Lispector, que um dia escreveu:
“Não entendo, só sinto. E se sinto, está certo.”
E é isso que me mantém. Sentir ainda é o que me move.
Talvez o sentido do meu trabalho esteja justamente nisso: na dor. Porque a dor da indiferença é o sinal de que ainda há importância. Se não doesse, é porque já teria deixado de importar.
Não sei até quando vou conseguir abrir e fechar as cortinas. Mas enquanto houver uma alma disposta a aplaudir de verdade, a sentir comigo, a estar presente, eu seguirei.
Porque apagar as luzes é simples.
Difícil é continuar oferecendo o bis.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.