por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
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@flaviomelloescritor
Há projetos que não nascem no calendário, mas no coração — e amadurecem em silêncio, como quem espera o tempo certo para florescer. A Semana de Arte Siqueirense é um desses frutos. Um sonho que começou em 2022, ano simbólico em que o Brasil celebrava o centenário da Semana de Arte Moderna. Quis o destino, porém, que a pandemia nos obrigasse ao recolhimento. Aquele tempo de máscaras e ausências nos ensinou que a arte, mesmo em pausa, continuava viva dentro de cada um — como um fogo que não se apaga.
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E talvez tenha sido providencial. Porque quando finalmente nasceu, em 2023, não foi apenas uma homenagem à Semana de 22, mas um gesto próprio, siqueirense, enraizado em nossa terra. Uma celebração que carregava não o peso da repetição, mas o frescor da reinvenção.
A arte de 23 não ecoava apenas o grito modernista de libertação estética; ela o transformava em partilha. A Semana de Arte Siqueirense emergiu como um ritual contemporâneo — um reencontro entre corpos, sons, gestos e memórias. E talvez seja isso o mais belo: perceber que, onde os modernistas buscavam romper com o passado, nós buscamos reconectar o presente com o que há de mais humano em nós — o desejo de pertencer, de criar, de sentir.
A primeira edição foi um sopro de esperança: setenta artistas, vindos de diferentes linguagens, reunidos em torno de uma única palavra — vida.
No ano seguinte, duzentos corações pulsando no mesmo compasso, provando que a arte é contagiosa, que se espalha como o vento, que cresce onde há solo fértil de sensibilidade.
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A arte, quando é verdadeira, não separa o saber do sentir; ela os reconcilia.
Agora, em 2025, chegamos à terceira edição. E não é apenas uma continuidade — é uma consagração. De 13 a 18 de outubro, a Casa da Cultura Neuri Camargo da Silva se torna mais uma vez o templo simbólico da criação. O espaço onde o sonho ganha corpo, e o corpo se torna linguagem.
Nosso mascote Tampinha, homenagem ao inesquecível Neuri, o palhaço que fez da alegria sua arte e de sua arte um ato de amor, nos lembra de algo profundo: o riso é também uma forma de sabedoria. É a filosofia da leveza, o gesto de quem compreende o absurdo da vida, mas escolhe seguir encantando.
Durante esses seis dias, tudo se mistura — teatro, dança, música, circo, exposições medievais, palestras, lançamentos de livros, encontros e trocas. O Instituto Federal do Paraná soma-se ao coro, ampliando o diálogo entre conhecimento e sensibilidade. Porque a arte, quando é verdadeira, não separa o saber do sentir; ela os reconcilia.
No fundo, toda Semana de Arte Siqueirense é uma espécie de rito antropológico contemporâneo: um ciclo coletivo de renovação simbólica, onde a cidade se reconhece através de seus artistas, e seus artistas reencontram no público o motivo de continuar criando. É como se, por alguns dias, rompêssemos a monotonia das horas e entrássemos num tempo sagrado — o tempo da criação, onde o instante vale mais do que o relógio.
A história humana sempre esteve ligada a isso. Antes da palavra escrita, veio o gesto. Antes da filosofia, veio o ritmo. O homem das cavernas não pintava para decorar, mas para existir. E quando penso nisso, percebo que a arte não é um luxo, é uma necessidade ancestral — a mesma que hoje pulsa no coração dos artistas siqueirenses.
Criar é resistir à indiferença. É desafiar a frieza das estatísticas e o cinismo dos dias. E é por isso que, quando vejo o brilho nos olhos dos artistas da cidade, sinto que algo muito maior está acontecendo — algo que não cabe nos editais, nem nos relatórios, nem nos cronogramas. É o humano se reerguendo, é o sensível se impondo sobre o ruído.
A arte é a nossa forma de respirar num mundo que às vezes esquece o ar. E ao final de cada Semana de Arte, quando as cortinas se fecham e o silêncio volta a ocupar a Casa da Cultura, sinto que a arte siqueirense respira aliviada.
E eu também.