Por Oliveira Júnior - Folha Extra
Nos últimos dias, Arapoti e toda a região foram palco de um debate que divide opiniões: os chamados carretões da alegria. Essas carretas coloridas, equipadas com som potente e personagens fantasiados, surgiram como uma alternativa de lazer barato, itinerante e acessível para famílias. Elas percorrem ruas de diversas cidades brasileiras, sobretudo em municípios do interior, onde as opções de entretenimento são mais restritas.
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Na teoria, a ideia parece simpática. Afinal, quem poderia ser contra momentos de diversão para as crianças? O problema está no conteúdo oferecido nesses passeios. E aqui é preciso ser direto: o que tem sido levado às ruas em nome do “lúdico” muitas vezes está longe de respeitar o universo infantil.
Músicas com refrões como “senta, senta, toma, toma” não são apenas inadequadas, são um desserviço à formação das nossas crianças. A erotização precoce, amplificada em letras explícitas, expõe meninos e meninas a mensagens que banalizam o corpo, o sexo e a violência. Não se trata de conservadorismo, mas de bom senso. O espaço que deveria ser de alegria, imaginação e fantasia acaba sendo invadido por conteúdos de cunho promíscuo.
Não bastasse a trilha sonora, há ainda a performance dos chamados “animadores fantasiados”. Vestidos de personagens infantis, muitos assumem comportamentos e danças que nada têm de inocentes. Já presenciamos relatos de mascotes rebolando de forma sexualizada diante de crianças pequenas, além de apresentações em frente a igrejas com músicas de teor erótico. A contradição é gritante: a fantasia que deveria proteger a inocência infantil acaba sendo usada como escudo para mascarar a vulgaridade.
É preciso também refletir sobre a procedência dessas carretas. Em grande parte, tratam-se de empresas privadas, muitas vezes informais, que percorrem o país oferecendo o serviço mediante o pagamento de ingressos ou convites. Elas não nascem de iniciativas culturais ou educativas, mas sim de um modelo comercial que explora a busca por lazer nas pequenas cidades. E como toda atividade empresarial, deveriam estar submetidas a regras claras e punitivas.
Reconheço, por outro lado, que há um aspecto positivo: os carretões oferecem uma opção de diversão acessível em cidades que carecem de parques, teatros ou cinemas. São baratos, itinerantes e conseguem atrair famílias inteiras para momentos de confraternização. Para muitos, é a oportunidade de sair da rotina e proporcionar um passeio diferente aos filhos. Ignorar esse lado seria negar a realidade de milhares de pessoas, mas com certeza com outra temática e outra abordagem recreativa.
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Mas aqui volto ao ponto central: a diversão não pode custar a inocência da infância. Se o entretenimento depende de erotização, algo está fundamentalmente errado. Há inúmeras formas de animar um passeio: músicas infantis, personagens que estimulem a imaginação, brincadeiras educativas, histórias, jogos coletivos. O que não é aceitável é expor meninos e meninas a um show de vulgaridade travestido de alegria.
Se queremos uma sociedade melhor, precisamos começar pelo que oferecemos aos nossos filhos. O lazer pode e deve ser divertido, mas nunca às custas da inocência.
Por isso, considero acertada a iniciativa do vereador Maicon Pot e da Câmara de Arapoti ao propor regras para esses eventos. Não se trata de censura, mas de responsabilidade. Liberdade artística não é licença para degradar valores, sobretudo quando falamos de crianças, público que não possui maturidade para filtrar conteúdos. Mais cidades deveriam seguir esse exemplo, adotando normas semelhantes para garantir que a proteção à infância não dependa apenas da boa vontade dos organizadores.
É preciso, sim, debater os limites da lei, garantir fiscalização e evitar excessos. Mas não podemos relativizar a proteção da infância. Entre agradar adultos com ritmos de duplo sentido e preservar o direito das crianças a um lazer saudável, a escolha deve ser óbvia.
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Se queremos uma sociedade melhor, precisamos começar pelo que oferecemos aos nossos filhos. O lazer pode e deve ser divertido, mas nunca às custas da inocência.