Por Flávio Mello
Escritor e Secretário de Cultura
Há quase vinte e cinco anos conheci Siqueira Campos, mas foi há oito que, junto da minha esposa e filhas, escolhi fincar raízes nessa terra. E não foi qualquer escolha. Foi um gesto de fé. Vi nessa cidade não apenas ruas e praças, mas um solo fértil onde poderíamos cultivar sonhos – e alguns já florescem. Um deles foi poder assumir a Cultura do município, esse espaço tão nobre onde o humano e o sagrado se encontram em arte, memória e transformação. Não foi fácil, nunca é.
Mas, sinceramente, quem se importa com a dificuldade quando se está vivendo num lugar que te acolhe com beleza, com humanidade e com tanto significado?
Siqueira é uma cidade viva. Há arte brotando nos cantos menos esperados, há vozes poéticas que estavam silenciadas e agora se revelam, há talentos que dormiam e agora despertam. Basta caminhar um pouco e deixar o coração aberto para ver — ou melhor, para sentir. Mas há algo que me tocou de maneira ainda mais profunda: a fé do nosso povo.
Essa crônica é sobre isso — sobre fé. Mais especificamente, sobre a fé católica, porque estamos em agosto, e agosto é o mês da Festa do Senhor Bom Jesus da Cana Verde. Mas é importante dizer que Siqueira Campos vai muito além de uma única expressão de fé: aqui cabem muitas crenças, muitos deuses, muitos modos de amar o sagrado. E é justamente essa pluralidade que torna nossa cidade tão especial.
A Festa do Senhor Bom Jesus chega, neste ano, à sua 94ª edição. Noventa e quatro anos de história, de joelhos dobrados, de promessas feitas em silêncio, de mãos levantadas, de velas acesas e olhos marejados. É impossível viver essa festa sem se emocionar. Sem sentir a presença do divino percorrendo cada rua da cidade, cada rosto, cada abraço.
Os romeiros caminham quilômetros, vindos de todos os cantos do Paraná e de além dele, trazendo nas solas dos pés a força da gratidão e da esperança. A procissão enche as ruas de luz. Um verdadeiro rio dourado de fé, formado por velas, cantos e orações. São missas de hora em hora, bênçãos, carreatas, motociatas, e uma multidão que se move pelo mesmo sentimento: amar e confiar.
E há milagres — ah, sim, há! Eu mesmo fui testemunha de alguns. Milagres discretos, silenciosos, mas que mudam a vida inteira de alguém. Milagres de cura, de reencontro, de recomeço.
Não podemos esquecer daquelas pessoas que dedicam seu tempo e seu amor a receber, atender e trabalhar voluntariamente na festa — seja no acolhimento, seja no atendimento entre missas, na limpeza, no caixa, churrasqueando… Enfim, são pessoas de todas as idades que dedicam a vida a servir na festa e ao Bom Jesus da Cana Verde. Gente que trabalha com o coração, movida por uma fé silenciosa e ativa, que talvez nunca suba ao altar, mas está todos os anos lá, sustentando o que há de mais bonito nessa celebração.
A festa também é popular — e é isso que a torna ainda mais bonita. Porque ela não se limita ao templo. Ela respira nas ruas, nas barracas, no parque de diversões, no cheiro de churrasco e doce de leite, nos brinquedos que giram ao som de gargalhadas e suspiros. Tem gente simples que me diz que passa o ano inteiro juntando dinheiro só para poder gastar um pouco nessa festa. E isso diz muito.
Tem comércio popular, tem de tudo: de panelas de ferro a brinquedos de criança, de utensílios domésticos a compra de cabelo humano. E agora, com alegria, conseguimos incluir a Rua dos Artesãos, ali pertinho do Santuário. Um espaço de dignidade para quem vive da arte e da criatividade. Um espaço de beleza, de respeito e de troca verdadeira.
A Festa do Bom Jesus é, para mim, um espelho da alma siqueirense. Uma alma que se curva, mas não se quebra — como a cana verde nas mãos do Cristo coroado. Uma cidade que, mesmo diante das adversidades, mantém a ternura, a fé, o sorriso e a vontade de seguir em frente.
Sou suspeito para falar. E assumo. Porque sou apaixonado por essa cidade. Morar aqui é um privilégio. E é aqui que quero viver o resto dos meus dias. Aqui, onde a arte pulsa, onde a cultura respira, onde a fé não é discurso — é gesto, é ação, é comunidade.
Neste agosto, eu convido você, leitor, a viver essa festa com o coração aberto. A andar pelas ruas como quem pisa num chão sagrado. A ouvir os sinos como quem escuta um chamado. A olhar para a imagem do Senhor Bom Jesus da Cana Verde com o mesmo olhar de quem acredita que, mesmo em tempos difíceis, a esperança ainda brota.
"Porque enquanto houver fé, haverá caminho.
Enquanto houver povo, haverá festa.
E enquanto houver amor em Siqueira Campos… haverá eternidade".

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.


