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Identidade, superação e aceitação marcam a trajetória de uma tomazinense em busca de seu verdadeiro “eu”
Chris Gouveia conta como foi a trajetória de preconceito e obstáculos até conseguir se descobrir e conquistar seu lugar na sociedade como uma mulher trans
Davi Martins12/06/2025Wenceslau Braz
“Dentro da escola eu vou usar o meu profissional. Do portão para fora, é minha vida pessoal”, disse Chris Gouveia em entrevista com a Folha. Foto: Arquivo Folha Extra
Aceitar sua própria identidade, enfrentar o preconceito, reivindicar direitos e conquistar a aceitação da sociedade continuam sendo barreiras enfrentadas diariamente pela comunidade LGBTQIA+ em todo o Brasil. Em cidades grandes, a aceitação tem encontrado menor resistência na sociedade, mas em municípios pequenos, onde o conservadorismo costuma ser mais presente e a diversidade menos visível, esses obstáculos se tornam ainda mais difíceis de superar. No Mês do Orgulho, a trajetória de Chris Gouveia, uma mulher trans que nasceu e cresceu no Norte Pioneiro, traz uma história repleta de emoções, com superações e a aceitação sobre quem realmente é.
“Todo mundo falava que isso era errado. Colocavam a Bíblia no meio, e eu pensava que estava vivendo algo muito errado”, disse.
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Chris Gouveia, tem 31 anos de idade, é professora em Wenceslau Braz, formada em Pedagogia, História, Filosofia e possui algumas fases de especialização em Educação Especial, Psico-Pedagogia, Neuro Psico-Pedagogia e Ensino Religioso. Com uma história inspiradora de aceitação e superação, Chris foi convidada pela reportagem para compartilhar um pouco de sua história na luta para enfrentar o preconceito, os costumes tradicionais e seus próprios questionamentos.
Chris nasceu na cidade de Tomazina, e desde cedo percebeu que sua forma de agir, brincar e pensar, não condiziam com seu gênero. “Desde pequena eu sempre brinquei de boneca, e sempre quando íamos brincar de casinha, ou alguma outra brincadeira do tipo, eu já me tratava como um personagem feminino.”, contou em uma entrevista exclusiva com a reportagem da Folha.
“Quando eu era pequena, meus amigos sempre me excluíam pelo meu jeito de ser”, lembrou Chris.
No entanto, apesar de ter esta percepção logo cedo, o primeiro desafio de Chris foi a auto aceitação. “Eu falava não. Aquilo era uma aberração. Acho que pela influência que eu tinha, achava que aquele sentimento era muito errado”, contou. Chris conta que o principal fator que ascendia este questionamento era a religiosidade. “Todo mundo falava que isso era errado. Colocavam a Bíblia no meio, e eu pensava que estava vivendo algo muito errado”, disse.
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Ainda jovem, Chris chegou a participar do Seminário na Igreja Católica, mas acabou desistindo. “Percebi que não era aquilo que queria”. Depois de desistir do Seminário, Chris se tornou uma universitária e, dentro da faculdade, percebeu que seus sentimentos não estavam errados. “Eu comecei a fazer faculdade, e percebi que lá haviam outras pessoas que eram como eu. Foi então que abri meus olhos e percebi que não era algo errado”, contou.
Foi então que a auto aceitação começou a fazer parte de sua vida, e o descobrimento sobre seus verdadeiros sentimentos abriram novos horizontes. No entanto, Chris passou por mais um período difícil depois de se aceitar. A aceitação do pai foi o maior obstáculo enfrentado, e algo que nunca foi alcançado.
Chris Gouveia ao lado de sua mãe, Maria Auxiliadora Machado, de 79 anos de idade. Foto: Arquivo Pessoal
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“Todo pai e mãe sabe, desde pequeno, sobre seus filhos. Minha mãe sempre me aceitou, mas meu pai foi meu maior obstáculo. Quando eu tinha dez anos de idade ele até tentou me matar. Ele não aceitava mesmo”, lembrou. Contudo, o pai de Chris faleceu no ano passado, ainda sem aceitar sua descisão, mas isso não fez com que ela desistisse de sua verdadeira identidade. “Mesmo assim eu o perdoei”.
Hoje, formada e trabalhando como professora no Ensino Fundamental e Médio, Chris agradece pelo respeito que é tratada, tanto no âmbito profissional quanto pessoal. “No primeiro dia de aula os alunos já me perguntam como quero ser chamada. Mas eu não ligo para ser ele ou ela, o que importa é o respeito entre a gente. E isso tem de sobra. Mas a maioria acaba me chamando de dona ou professora, pela aparência”, disse.
“Dentro da escola eu vou usar o meu profissional. Do portão para fora, é minha vida pessoal”
“Antes eu pensava no que os alunos e as pessoas iam pensar. Mas decidi fazer a minha transição de verdade, porque comecei a pensar ‘poxa, é sobre mim’, e decidi fazer a transição”, enfatizou Chris. “Dentro da escola eu vou usar o meu profissional. Do portão para fora, é minha vida pessoal”, salientou. E, apesar dos desafios, hoje todos a tratam com respeito. “Os alunos, pais, professores e colegas de trabalham me respeitam e me tratam com muito carinho, e isso é muito bom”, enaleteceu.
Contudo, apesar dos desafios e obstáculos, mesmo com seu pai não aceitando sua decisão e a sociedade a tratando com diferença, Chris não olhou para as dificuldades, e marca sua história com superação, mostrando o valor e a imensidão de significados que o Mês do Orgulho LGBTQIA+ pode trazer para aqueles que vivenciam e lutam contra a discriminação e o preconceito por suas escolhas.
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