Com o passar dos anos, o número de crianças diagnosticadas com transtornos do neurodesenvolvimento, como o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e o Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), tem aumentado consideravelmente. Esse crescimento está diretamente ligado ao avanço da ciência, à criação de políticas públicas de apoio à infância e à maior disseminação de informações sobre saúde mental. No entanto, mesmo com esse cenário de maior visibilidade e acesso, muitos pais ainda resistem a aceitar que seus filhos apresentam dificuldades e precisam de acompanhamento especializado.
“Precisamos tirar o ‘ah meu filho tem isso, ele é diferente e pronto’, e colocar na cabeça dos pais o que realmente significam os transtornos do neurodesenvolvimento”, afirma o psicólogo Julio Cesar Freitas Giovanni.
Para compreender essa resistência, a reportagem da Folha conversou com o psicólogo Julio Cesar Freitas Giovanni, da cidade de Wenceslau Braz, no Norte Pioneiro. Segundo ele, uma das principais razões para essa negação está na falta de informação associada ao medo e ao estigma histórico que envolve os transtornos mentais.
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“Hoje falamos muito mais abertamente sobre saúde mental do que há algumas décadas. Porém, ainda enfrentamos os reflexos de um passado em que esses assuntos eram tratados com preconceito, exclusão e desconhecimento. Muitos pais cresceram ouvindo que ter um problema de saúde mental era algo vergonhoso. Isso influencia diretamente a forma como reagem diante de um possível diagnóstico dos filhos”, explica o psicólogo.
Julio também aponta que muitos pais se sentem culpados ao receberem um diagnóstico que aponta transtornos de neurodesenvolvimento de seus filhos, o que pode resultar na resistência contra o diagnóstico. “Eles acreditam que erraram na criação, ou que são responsáveis geneticamente pelo problema do filho. Essa culpa faz com que prefiram negar a realidade a enfrentá-la”, relata.
Essa negação, no entanto, pode trazer consequências graves. De acordo com o psicólogo, quando uma criança com um transtorno do neurodesenvolvimento não recebe o suporte necessário, ela tende a enfrentar mais dificuldades acadêmicas, sociais e emocionais no futuro. “A intervenção precoce é essencial. Quanto antes iniciamos o tratamento, maior é a chance de reduzir prejuízos e promover autonomia e qualidade de vida para a criança”, alerta Julio.
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A intervenção precoce, segundo o profissional, se refere ao diagnóstico e início de acompanhamento especializado ainda nos primeiros anos da criança, especialmente entre os zero e seis anos de idade, pois trata-se do período mais importante da neuroplasticidade, ou seja, quando o cérebro da criança está em desenvolvimento acelerado e mais receptivo a estímulos, o que faz com que um bom trabalho terapêutico, diagnósticos e laudos possam fazer uma grande diferença no futuro delas.
Julio também compartilhou uma experiência de carreira em que teve de lidar com pais que resistiram a um diagnóstico. “Atendi uma criança com diagnóstico de TDAH dado por um neuropediatra, mas os pais vieram buscar uma segunda avaliação porque não aceitavam o diagnóstico, especialmente por causa da medicação prescrita. Diziam: ‘meu filho não é louco’. Expliquei que meu trabalho não é contestar colegas, mas sim avaliar com base nos critérios clínicos. E, de fato, a criança se encaixava plenamente no diagnóstico. Então perguntei a eles: ‘Por que esse diagnóstico incomoda tanto vocês?’. A partir daí, conseguimos conversar sobre preconceitos e entender que o tratamento não rotula, ele acolhe e ajuda”, contou.
Apesar da resistência, o psicólogo ressalta que é possível mudar essa realidade. A chave, segundo ele, está na informação.
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“Quando os pais entendem que o diagnóstico não é uma sentença, mas uma oportunidade de agir de forma eficaz, eles começam a ver as coisas de outro jeito. Precisamos desmistificar os transtornos do neurodesenvolvimento e mostrar que com tratamento adequado, as crianças podem ter uma vida plena”, afirmou.
Segundo Julio, o diagnóstico é apenas um começo para uma melhora significativa na qualidade de vida, seja de crianças, jovens ou até mesmo de adultos. O psicólogo ainda enfatiza sobre a necessidade de mudar a mentalidade dos pais. “Precisamos tirar o ‘ah meu filho tem isso, ele é diferente e pronto’, e colocar na cabeça dos pais o que realmente significam os transtornos do neurodesenvolvimento”, enfatizou.