Nesta terça-feira (29), é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Fumo tendo com o objetivo conscientizar a população em relação aos problemas relacionados ao tabagismo. Neste cenário, uma das preocupações é em relação a iniciação de jovens e adolescentes no mundo do tabaco.
De acordo com uma pesquisa divulgada pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca), nesta segunda-feira (28), foi observado que a estagnação no preço dos cigarros no Brasil, tanto os de procedência nacional quanto os contrabandeados, contribui para que os brasileiros utilizem o produto cada vez mais cedo.
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O médico e estudioso da Divisão de Pesquisa Populacional - Coordenação de Prevenção e Vigilância (Conprev) do Inca, André Szklo, falou sobre o assunto. “Desde 2017, não há reajuste, nem do imposto que incide sobre os produtos derivados do tabaco, nem sobre o preço mínimo estabelecido por lei. O preço está congelado desde o final de 2016”, explicou.
A pesquisa foi realizada em parceria com a Universidade de Illinois, que fica em Chicago nos Estados Unidos, e foi publicada na Tabacco Control, uma das principais revistas sobre o consumo e controle do tabaco no mundo.
Ainda de acordo com Szklo, com o passar dos anos o preço dos cigarros perderam seu valor real e acabaram ficando mais acessíveis, principalmente em relação a questão financeira dos jovens. “É uma estratégia que acaba casando: não tem o reajuste da política fiscal sobre os produtos derivados do tabaco e a indústria pressiona para o preço ficar baixo, para inibir o contrabando. E o que a gente já está observando é um reflexo natural na proporção de fumantes entre os jovens e adolescentes, especialmente meninas”, acentuou.
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Para os pesquisadores, a falta de reajuste e controle no preço dos produtos derivados do tabaco acabam tornando o cigarro algo mais acessível para os jovens e população adulta com poucos recursos financeiros, pois é um produto mais barato influenciando em um consumo cada vez mais precoce por parte do brasileiro. “A gente já está observando isso, que está havendo um aumento na proporção de fumantes entre adolescentes e jovens”, disse Szklo.
Szklo observa uma redução no número de jovens adultos que fumavam desde o fim da década de 1980, mas estes valores pararam de apresentar queda devido ao enfraquecimento na política de preços e impostos sobre o produto. Para o pesquisador, desde 2016 o preço base para comercialização dos cigarros brasileiros é de R$ 5.
O pesquisador do Inca reiterou que nunca esteve tão baixa a relação entre o preço do cigarro legal e do cigarro ilegal, mas negou que a principal solução para coibir o contrabando seja reduzir o preço internamente. Mais de 25% das marcas ilegais que circulam no país são vendidas a um valor igual, ou levemente superior, ao preço mínimo estabelecido por lei para os cigarros legalizados, que está estagnado em R$ 5 o maço, desde 2016.
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Além disso, o pesquisador ainda ressalta que o estudo avaliou que o baixo valor dos cigarros contrabandeados também torna o consumo mais crítico e favorece a iniciação ao hábito de fumar.
Por outro lado, a pesquisa mostra que o consumo de cigarros contrabandeados tem apresentado recuo em relação as marcas nacionais, fator que acontece devido a proximidade dos valores praticados que, em alguns casos, registram o mesmo preço entre o produto nacional e o ilegal.
Neste contexto, como é de se esperar, os impactos são diretos na saúde. “Quando você tem aumento na proporção de fumantes, isso vai gerar um custo para o país. Hoje em dia, o Brasil gasta R$ 125 bilhões - entre custos diretos e indiretos - com doenças relacionadas ao uso de produtos derivados de tabaco, e a arrecadação, por exemplo, da indústria de tabaco não cobre nem 10% disso”, destacou Szklo.
Ainda no que diz respeito a saúde, a nova geração de fumantes apresenta números relevantes no que se diz respeito a mortes. De acordo com outros estudos divulgados no país sobre o tema, a perspectiva é alarmante visto que a previsão é de que dois em cada três fumantes irão morrer. “A gente está tendo uma nova geração de fumantes que está substituindo uma parcela da população atual que, infelizmente, virá a falecer”, revelou Szklo.
Para o pesquisador, uma das soluções para enfrentar o problema está em mexer com o bolso dos fumantes retomando a política tributária e aumentando as alíquotas sobre os produtos derivados do tabaco. Além disso, é necessário implementar protocolos para combater e eliminar o comércio ilícito de tabaco.