Wenceslau Braz é assim, andar pelas ruas e conhecer boa parte dos moradores, cumprimentar com “Aoba”, o “olá” do dialeto local, quem nunca?
Nas conversas que vem e vão, logo se ouve “Filho de fulano foi morar em Curitiba”, a entonação da voz mostra que lá, a realidade é muito distante da pequena cidade do Norte Pioneiro, prestes a completar 83 anos de uma história em que muitos se foram, mas todos sempre voltam.
No entanto, o sonho de “beltrano” que foi morar na capital é de um dia voltar para a terra natal, a charmosa Wenceslau, onde as ruas nunca mudam, os comércios passam de pai para filho, mantendo uma tradição perene.
A evasão de jovens é a mais intensa, em busca de oportunidades e uma vida mais sofisticada, eles deixam as famílias e partem para grandes centros, onde tem prédio, tem shopping, todo mundo trabalha de terno, gravata e vestido de linho, mas o aroma do café coado na hora é privilégio de quem está aqui no interior, além daquela comidinha da vovó, preparada pela primeira masterchef que você conheceu, e naquele tempero especial, nada mais havia, além de uma dose enorme de amor.
Por isso, chega feriado, sai feriado, para onde os filhos desta terra voltam? Wenceslau Braz. No seio da família, quase não tem lugar pra fast food, a mesa farta relembra a infância, quando não tinha tanto, mas o amor preenchia todos os vazios.
À família que fica, restam as fotos, os áudios, os vídeos trocados com quem está longe - “Meu coração ta lá com meu filho” - alguns dizem, outros esperam quem se foi voltar para levar a saudade embora.
Mas a verdade, é que a história, que de longe beira os 83 anos, está em cada um que nasceu nesse pequeno recanto hospitaleiro. Aquela história que começou lá no trilho do trem, já saiu para escrever novos capítulos em outras cidades, estados e até países, mas onde quer que estiverem, os escritores sempre serão cidadãos brazenses.
O aniversário de 2018 foi generoso com quem mora aqui, deu uma segundona de folga, mas muitos não verão a mesa cheia de gente, porque o feriado é só aqui e do que adianta para o brazense estar em casa, se não estiver rodeado de parentes.
“Tudo que sou hoje, foi graças a estrutura que recebi em Wenceslau”
O sabor da gemada da avó Cecília é uma das lembranças que vem a mente da Vanessa de Cassia Mendes Chueh Beja, quando recorda os tempos vividos em Wenceslau. De família tradicional, ela foi para a capital no ano de 1996, pois o marido foi chamado para a construção do Aeroporto Afonso Pena. “Se fosse por mim não teria saído de Wenceslau, que é onde estava toda minha família, meus amigos, minha história”, relembra.

A saudade da infância e juventude também fazem parte do carinho que tem pela terra natal, onde seu pai Amin Chueh foi proprietário da Padaria Pão Nosso durante 15 anos e agora tem apenas a mãe morando. “Na verdade eu vou muito pouco para W. Braz, minha mãe vem mais pra cá. Quando chego aí eu fico triste, porque vejo tudo diferente, não são as mesmas pessoas, alguns lugares que íamos não existem mais ou estão abandonados e, no meu subconsciente, eu penso que vou chegar e vai estar tudo igual era na minha infância”, comenta.
“A gente tinha tanta criatividade, não tinha muitos lugares para sair, mas nossa agenda era sempre cheia de eventos, a gente se reunia e fazia arroz com frango, nunca me esqueço”.
Hoje, Vanessa se sente feliz pelo sucesso que teve na vida pessoal e profissional, como professora estadual, mas faz questão de ressaltar. “Tudo que sou hoje, foi graças a estrutura que recebi em Wenceslau”, finaliza.
“Nasci em W. Braz e sou de W. Braz, só moro em Curitiba, mas Wenceslau é a cidade que está no meu coração”
Nei Batista da Silva saiu de W. Braz aos 17 anos, buscando oportunidade de estudo e emprego em Curitiba, ele se mudou sozinho para a capital, deixando toda família no município brazense. Com a ajuda de amigos de Wenceslau, ele já chegou trabalhando em Curitiba e de lá não saiu mais, abriu diversas empresas de sucesso e acabou levando toda família para lá. “Eu sabia que não teria muitas chances na minha cidade, por isso tentei a sorte na capital, e graças a Deus deu certo, mas mesmo longe e fazendo muitas viagens devido ao trabalho, não há lugar melhor que W. Braz pra mim”, declara.
As visitas à terra natal são periódicas, cerca de cinco vezes ao ano, quando ele vem para o interior rever os amigos e alguns parentes que residem em Tomazina. “Hoje minha esposa e eu já estamos aposentados, mas continuo trabalhando com consultoria de empresas internacionais, por isso da agenda apertada durante o ano, mas sempre que posso, reservo alguns dias para passar em W. Braz”, garante.

Nei, como muitos outros, é mais um filho da terra que utilizou a base que recebeu na cidade pequena para vencer na vida. Hoje, aos 63 anos, ele tem orgulho em dizer que, onde quer que ele vá, ele sempre se apresenta como brazense. “Nasci em W. Braz e sou de W. Braz, só moro em Curitiba, mas Wenceslau é a cidade que está no meu coração. Com certeza voltaria a morar em W. Braz, ainda é um sonho”, conclui.

