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Platina: superando a partida do trem
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Distrito superou o fim da linha férrea para se tornar uma espécie de “cidade satélite” de Santo Antonio, tendo inclusive um crescimento populacional nos últimos anos.
Depois de sair do bolo de problemas do Monte Real, a equipe de reportagem chega ao distrito da Platina, também em Santo Antonio da Platina. Só que se no último lugar visitado os problemas chamaram a atenção, a Platina contrasta e bastante com a situação do seu distrito “co-irmão”, ficando difícil até imaginar que ambos estão no mesmo município.
O primeiro dos contrastes fica no acesso, já que a Platina é “ligada ao mundo” por uma rodovia estadual bem conservada (que inclusive foi recapeada recentemente).
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E a própria rodovia dá o exato tom do lugar, já que ela termina na estação de trem da Platina, precisamente por onde passa a história e os dias áureos do distrito, mostrando que a existência tanto da estrada quanto da Platina se deve, em grande parte, ao trem.
Sabe-se que os antigos povoados se formavam em volta das estações ferroviárias, e é justamente assim que a Platina se desenvolveu, até porque não há estação na sede do município e nos tempos dos trens de passageiros a população de Santo Antonio se deslocava até a Platina para fazer as demoradas, porém charmosas, viagens sobre os trilhos da linha férrea.
Bom, pitadas históricas a parte, o distrito passa uma boa primeira impressão aos visitantes, com casas bonitas logo na chegada. E entrando na Platina a equipe de reportagem já se depara com um fato que chama a atenção: uma aglomeração na porta de uma casa em pleno período da manhã em um dia de semana. A curiosidade só é sanada quando se avista a placa de uma funerária, que explica o porquê da aglomeração.
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Poucos metros adiante, uma segunda aglomeração (ainda que consideravelmente menor) na praça do distrito também prende a atenção. Um idoso faz exercícios na Academia da Terceira Idade e conversa rapidamente com a equipe de reportagem. Porém, o ônibus circular que vai da Platina para o centro de Santo Antonio passa e toda a aglomeração, ao mesmo tempo que é explicada, vai embora a bordo do coletivo – inclusive o idoso, que só teve tempo de dizer que mora ali há pouco tempo mas que as pessoas do distrito são muito boas.
E aí a andança continua rumo ao destino da estrada que leva até o distrito: a estação ferroviária da Platina (que por si só já mereceria uma matéria inteira só relacionada a ela). Ali, um grupo de funcionários trabalha na parte final da restauração do prédio, que teve início em janeiro e, segundo comentários dos próprios funcionários, aconteceu em virtude da possível implantação de um trem turístico entre Jacarezinho e Joaquim Távora, passando pela Platina.
A estação, inaugurada em 1926, está em seu segundo prédio já que o primeiro, construído em madeira, pegou fogo. No entanto, a estação atual estava em péssimas condições, servindo de abrigo de moradores de rua por anos, e prestes a desabar.
E em meio a conversas com os operários, surge a informação que um antigo funcionário da rede mora há poucos metros da estação. Trata-se de Rosalvo Santos Ferreira, que trabalhou na manutenção dos trilhos e posteriormente como cozinheiro.
Morador da Platina há 36 anos, Rosalvo é uma dessas figuras carismáticas e cheio de histórias para contar. E como não poderia deixar de ser, a conversa se inicia pelo trem. Como mora praticamente de frente para a estação, o agora aposentado olha com nostalgia para aquilo que um dia foi o maior bem do distrito. “Essa estação tinha um movimento muito grande, pessoal de Santo Antonio que precisava viajar vinha pra cá pra pagar o trem, e na volta desembarcava aqui de novo, então era gente pra cima e pra baixo quase o tempo todo”, relembra, se referindo à época dos trens de passageiros, que pararam de circular no Ramal do Paranapanema em 1979.
“Mas depois que o trem de passageiro parou de circular, ainda tinha um bom movimento, porque a linha tinha bastante funcionário. Eu por exemplo, trabalhei como cozinheiro na estação para os outros funcionários da rede”, conta Rosalvo. “Mas aí pararam com tudo, virou um abandono só. Dava tristeza de ver o estado da estação, ainda bem que agora estão arrumando”.
No entanto, com o declínio da rede, o distrito também passou a amargar dias de esquecimento, já que sem o trem em funcionamento sofreu uma queda brusca de movimento, o que causou diminuição na população e, consequentemente, afetou a economia local.
No entanto, o que se encaminhava para um “final triste” sofreu uma nova mudança de rumos, e a Platina surpreendentemente superou o fim da linha férrea, e apesar de atualmente ter o único posto de saúde em uma reforma que não termina e algumas ruas ainda não pavimentadas, viu sua população crescer.
“Hoje são quase 2 mil moradores . Como o aluguel aqui é barato e ir para o centro de Santo Antonio é fácil, já que temos vários horários de ônibus por dia tanto ir quanto pra voltar, muita gente escolhe morar aqui na Platina, que é um lugar muito bom para se viver”, completa Rosalvo.
E a certeza que fica é o que o trem foi embora, deixando, além dos seus trilhos, a saudade, porém que a Platina superou essa questão e se readequou a uma nova realidade, sendo uma espécie de “cidade satélite de Santo Antonio da Platina”,ainda que com marcas inesquecíveis do passado.
Por LUCAS ALEIXO