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A Voz que Habita as Madrugadas

Divino Roberto e a arte de permanecer onde o tempo insiste em passar

Por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura
@flaviomelloescritor

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Se há um nome que sempre ouço com carinho pelas ruas de Siqueira Campos, depois do multifacetado e artista nato Frei Gabrielângelo... é o de Divino José Roberto. Mas dizer apenas isso seria pouco. Porque há nomes que não cabem na superfície das palavras. Há pessoas que não se explicam, se sentem.

Divino é uma dessas presenças que atravessam o tempo sem fazer alarde. Não pertence apenas ao agora. Ele habita uma espécie de permanência... como se sua existência estivesse costurada às madrugadas da cidade, ao silêncio das ruas antes do sol nascer, ao primeiro café que esquenta as mãos de quem acorda cedo demais ou dorme tarde demais.

Volta e meia o vejo passando, em seu carro, vivendo aquilo que chamamos de cotidiano. Mas há algo de extraordinário nisso. Porque o cotidiano de quem dedicou uma vida inteira à escuta do outro nunca é comum. É feito de vozes acumuladas, de histórias que ninguém mais lembra, de afetos que se depositam aos poucos, como poeira de luz sobre o tempo.

E talvez seja por isso que, quando alguém fala seu nome, não fala apenas com a boca. Fala com o rosto inteiro. Vem sempre acompanhado de um sorriso, de um suspiro, de um “Ahhh… o Divino…”. Como se, ao evocá-lo, as pessoas acessassem também uma parte mais doce de si mesmas.

Trabalhar com cultura me ensinou a reconhecer esses sinais. Aprendi que uma cidade não se sustenta apenas em suas construções, em seus eventos ou em suas políticas públicas. Uma cidade se sustenta, sobretudo, nas pessoas que a atravessam com sentido. E Siqueira Campos... essa cidade que escolhi para amar... é, como diria Mia Couto, “abenSonhada”. Porque aqui ainda existem figuras que não foram consumidas pela pressa do mundo.

Divino é uma dessas figuras.

Sua história se mistura com a da Rádio Bom Jesus de maneira quase indissociável. Não é apenas um profissional que trabalhou por décadas em um mesmo lugar. É alguém que ajudou a construir o próprio significado desse lugar. São 59 anos de rádio. Cinquenta e nove anos acordando antes da cidade, antes dos pássaros, antes da luz, para ser voz quando o mundo ainda é silêncio.

Há algo de profundamente simbólico nisso.

Enquanto muitos dormem, ele fala. Enquanto muitos se perdem, ele orienta. Enquanto muitos se sentem sozinhos, ele faz companhia. O rádio, em sua essência mais pura, é isso: presença invisível. E Divino soube, como poucos, transformar essa invisibilidade em afeto concreto.

Filho de José Augusto Roberto e Lázara da Conceição Roberto, traz consigo a herança de quem veio de longe para fincar raízes aqui. Casado com Lúcia, pai de Letícia e Roberto, construiu uma vida que não se resume a títulos, mas a vínculos. E talvez seja isso que mais impressiona: a solidez de uma trajetória que não precisou de atalhos.

Sua carteira de trabalho carrega um único registro. Em tempos de fragmentação, isso soa quase como um ato de resistência. Permanecer. Ficar. Criar história no mesmo chão. Isso exige mais do que disciplina, exige amor. E ele amou.

Amou o rádio. Amou a música... desde menino, quando ganhou seu primeiro violão. Amou a possibilidade de comunicar. Amou o encontro com o outro, mesmo que esse outro estivesse do outro lado de uma frequência invisível. Cantou, compôs, se apresentou, conheceu grandes nomes, de Pelé a Nelson Gonçalves, mas nunca deixou que o extraordinário o afastasse do essencial.

Porque o essencial, para ele, sempre esteve aqui. Também empreendeu, criou, incentivou. A ROBERLETHI, mais do que uma empresa, carrega em si um gesto: o de continuar investindo na vida coletiva, no esporte, naquilo que faz uma cidade pulsar para além das urgências.

Mas, no fim, tudo retorna ao mesmo ponto: a voz. Essa voz que atravessa décadas. Que acorda madrugadas. Que embala pensamentos. Que, sem que a gente perceba, se torna parte da memória afetiva de uma cidade inteira.

Falar de Divino é falar sobre permanência em um mundo que desaprendeu a permanecer. É falar sobre delicadeza em um tempo que endureceu. É falar sobre alguém que fez do seu ofício uma forma de cuidado.

E talvez seja isso que mais importe. Que sua vida continue sendo essa travessia luminosa entre o silêncio e a palavra. Que sua presença siga ecoando onde a pressa não alcança. Que sua história permaneça, não apenas registrada, mas sentida.

Porque há pessoas que passam pela vida, e há aquelas que, como Divino, se tornam parte dela. E, como ele mesmo diz... com a simplicidade que só os grandes carregam: “Amo Siqueira e seu povo. Por essa terra faço tudo que posso.”

Agradeço a Câmara dos Vereadores de Siqueira Campos pela ajuda com o texto biográfico para compor essa crônica.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

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