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Sem talento, sem sentimento, peso de porta

“A arte existe porque a vida não basta”

por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura

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@flaviomelloescritor

 

"A arte existe porque a vida não basta" - Ferreira Gullar

Há no mundo uma imensidão de gente que acorda cedo. Gente simples, gente do bem e de bem. Levantam antes do sol, lavam o rosto ainda meio sonâmbulos, põem a água do café para ferver, ajeitam a marmita com carinho de quem sabe que o dia será longo. Beijam esposa, filhos, cachorro, santo de devoção, cada um a seu modo, e seguem. Partem para um trabalho muitas vezes pesado, repetitivo, cansativo, cheio daquelas responsabilidades que não pedem licença para existir.

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São homens e mulheres que, apesar de tudo, não desejam mal a ninguém. Enfrentam suas dores em silêncio, suas faltas, seus medos. Às vezes choram sozinhos no banheiro. Às vezes se sentam num bar e pedem uma cerveja, como quem pede uma trégua ao destino, para tentar adivinhar o próprio futuro. Contas chegando, salário curto, sonhos longos.

E entre essas mesmas pessoas há um tipo especial de trabalhador: o artista. O músico, o cantor, o instrumentista... esse ser que depois de um dia inteiro na fábrica, no escritório, no comércio, volta para casa, toma um banho rápido e parte. Literalmente parte: porque carregar um sonho é sempre partir para algum lugar.

Eles vão para o bar, o pesqueiro, o Grill, a festa, o evento. Vão fazer um som, ganhar um extra, mas sobretudo manter acesa aquela chama que começou lá atrás: quando eram crianças e ouviam no rádio um ídolo que parecia morar em outro planeta. Muitos aprenderam sozinhos. Sem incentivo, sem apoio, sem “vai firme, menino”. Apenas eles, um violão debaixo do braço, e a fé torta, mas teimosa que move quem acredita na própria voz.

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E fazem o seu melhor... ah, e que melhor. Enquanto o público mastiga petisco e bebe drink, eles entregam alma. Entregam alegria, entregam o que têm e o que ainda terão. Sim: muitos artistas daqui mesmo, da nossa cidade, já abriram shows nacionais. Alguns têm composições gravadas por gente grande. Outros se tornaram amigos pessoais desses artistas que vêm até nós cantar para nosso povo. E, veja só, todos foram crianças um dia, todos sonharam igualzinho aos que sonham hoje.

Mas, sempre existe um mas, há também o outro lado. O lado feio do ser humano

Mas, sempre existe um mas, há também o outro lado. O lado feio do ser humano. Aquele feito de inveja, de frustração, de falta de empatia. Aquele que não cria, não constrói, não sente... e por isso mesmo tenta destruir. São os que zombam do artista. Os que ironizam. Os que, atrás de uma tela de computador, se tornam gigantes de covardia. Gente sem talento, sem sentimento… peso de porta.

Esses não merecem nosso desgaste, é verdade. Mas também não podemos permitir que contaminem aquilo em que acreditamos. Como canta Elton John, “o inseto que mata a semente” existe em toda plantação. Pois bem: existe aqui também. Poucos, mas existe.

A diferença é que há jeitos de lidar com eles. Um deles é continuar. Trabalhar duro. Investir no sonho. Fazer arte como se fosse alimento. Deixar que esses insetos sequem sozinhos, até desaparecer. A plantação, que é nossa história, nossa cultura, nossa fé na beleza... precisa seguir verde.

Porque uma cidade pode até sobreviver sem muita coisa. Mas sem arte, meu amigo, minha amiga… sem arte não há vida.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

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