por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
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@flaviomelloescritor
Maldita traça que come páginas de sabedoria.
Não há nada na terra que me cause mais repulsa do que esse ser diminuto, quase invisível, mas devastador como uma peste medieval. Esses insetos desprezíveis não comem apenas papel — eles devoram memória, mastigam pensamento, trituram a eternidade que ousamos escrever. Um dia, possivelmente, comerão até estas palavras, deixando apenas um rastro de pó, como se a literatura fosse feita de cinzas.
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E pouco me importa se algum cientista apaziguado me disser que fazem parte do ciclo da natureza, da cadeia alimentar de alguma coisa que, em última instância, equilibra o universo. Pouco me importa que estejam presentes em poemas, canções ou metáforas populares — para mim são a pura imagem de um filme de terror íntimo. Se eu fosse um Kafka tupiniquim — o que nem de longe sou — jamais escreveria A Metamorfose. Não, um caixeiro viajante escravo do tempo, da geografia e das fronteiras da família não se transformaria em um inseto abominável. Muito menos em uma traça.
Aqui, em casa, cercado por livros, discos de vinil e documentos que sustentam minha pesquisa cultural, sinto-me sitiado. Um império silencioso de papel à mercê de criaturas miúdas, que corroem mais rápido que a ferrugem. E pergunto-me:
O que pensou Deus ao criar tais horrores? Ou será que não foi Ele? Talvez tenha sido uma distração cósmica, uma sobra de barro, uma ironia cruel.
Eu, se pudesse escolher minha tortura, entraria numa piscina de ratos — parodiando o poeta burguês — ou enfrentaria baratas no escuro de um quarto fechado. Pelo menos Kafka, com seu horror lúcido, deu nome à barata, elevou-a à categoria de símbolo. Mas as traças, não. Elas são invisíveis, subterrâneas, sem mitologia própria. Vivem na penumbra, corroendo como o esquecimento, como o Nada que avança em A História Sem Fim. São como aquela doença que não me lembro o nome — justamente porque ela rouba a lembrança.
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E, no entanto, sei que devem ser úteis para alguma engrenagem invisível, algum fio do tear cósmico que desconhecemos. Caso contrário, por que existiriam? Talvez sirvam para nos lembrar da fragilidade de tudo o que construímos. O papel, o vinil, a fotografia, a carta — tudo é pó. Tudo é vulnerável à boca esfomeada da traça.
Mas toda vez que esmago uma delas, sinto um freio dentro de mim. O “sensor pai” se acende. Imagino a cena grotesca: seus filhotes escondidos entre um livro de crônicas e outro de poesia, ou talvez entre páginas de artes e antropologia, esperando pelo alimento. E eis que o alimento não vem. Imagino a fome insuportável daquela ninhada, que se contorceria em silêncio, aguardando, no mínimo, uma palavra.
E penso: se ao menos uma delas recebesse como último sustento a palavra AMOR, talvez a existência das traças tivesse, finalmente, alguma redenção.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.