por Flávio Mello
Secretário Municipal de Cultura
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@flaviomelloescritor
Costumo guardar o plot twist para o final, mas hoje abro mão desse artifício. Sei que parte dos que me leem — ou fingem fazê-lo — só resiste às três primeiras linhas. É o tempo que a superficialidade concede antes de buscar outro escândalo ou publicar uma frase de efeito com foto de pôr do sol. Pois bem: declaro, desde já, que sou contra toda violência. Todas. Sobretudo contra aqueles que não têm voz ou força para revidar: crianças, idosos, animais. Sim, maltratar um bicho é hediondo e precisa ser punido com o peso da lei. Não escrevo aqui para relativizar isso.
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Respeito é uma escolha ética, uma semente plantada na infância que floresce — ou não — conforme a qualidade do solo interior.
Mas quero propor outra lente. Talvez a maior crueldade “animal” não seja aquela praticada contra os animais — pelo menos não apenas. Talvez ela habite os interstícios daquilo que chamamos humanidade. Está no gesto frio de quem se vê como superior, quando humilha, difama, retira o pão do outro, destrói reputações, menospreza os humildes. E o faz, ironicamente, enquanto se apresenta como protetor dos indefesos.
Eis o paradoxo que me atormenta: como alguém pode clamar pelo bem-estar dos bichos e, ao mesmo tempo, tratar pessoas como descartáveis?
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A filosofia nos lembra que o homem é um animal simbólico — criador de linguagem, ritos, mitos. Aristóteles nos nomeou “zoon politikon”, o bicho da pólis, capaz de deliberar sobre o justo e o injusto. Mas a mesma razão que nos eleva pode ser a lâmina que fere. Quando acreditamos que nossos valores bastam para legitimar o desprezo, caímos numa selvageria ainda mais perversa que a do instinto: a selvageria justificada.
Recordo um episódio antigo. Estava numa missa, fila para a comunhão, tentando conter minhas próprias sombras. Diante do altar, encontrei alguém que, tempos atrás, havia ferido a mim e à minha família com palavras e atos. Um golpe silencioso, mas profundo, daqueles que roubam o alimento da mesa e a alegria dos dias. O rito exigia reconciliação, mas eu, imperfeito e falível, não consegui permanecer ali. Migrei para a fila ao lado, onde um senhor cansado, desconhecido, aguardava o mesmo pão eucarístico. Aquele rosto simples parecia carregar a nobreza dos que nunca precisaram esmagar ninguém para provar grandeza.
Ali percebi o abismo entre o discurso piedoso e o gesto de compaixão.
Antropólogos descrevem a cultura como um conjunto de símbolos e práticas que nos afastam da brutalidade da selva. Mas, às vezes, nossas instituições — templos, tribunais, universidades, redes sociais — tornam-se arenas de vaidade onde voltamos a disputar território, apenas trocando presas por curtidas e lanças por hashtags. É curioso: a mão que acaricia um cão pode ser a mesma que aperta, invisível, o pescoço da dignidade alheia.
Não se trata, aqui, de santificar-me. Sou pequeno, pecador, aprendiz. Tropeço nos meus próprios conceitos, gargalho onde não deveria, erro a cada esquina. Mas uma certeza me acompanha: não piso em ninguém, seja humano ou não. Respeito é uma escolha ética, uma semente plantada na infância que floresce — ou não — conforme a qualidade do solo interior.
A religião, quando livre da caricatura moralista, nos lembra disso. O Cristo que acolheu pecadores e lavou os pés dos discípulos não o fez porque aprovava suas falhas, mas porque via neles a dignidade que o poder insiste em negar. O Buda pregou compaixão universal, não seletiva. Mesmo os filósofos céticos, como Montaigne, advertiam que o verdadeiro sábio mede sua estatura pelo modo como trata os pequenos — humanos ou não.
Talvez seja isso que me incomode
Talvez seja isso que me incomode: a incoerência de quem ergue bandeiras em defesa dos bichos enquanto despreza garçons, faxineiras, motoristas, balconistas. De quem posa com cães resgatados, mas humilha o vizinho analfabeto. De quem prega empatia online, mas cultiva rancores venenosos fora da tela. Essa, sim, é uma crueldade digna de estudo sociológico: uma ferocidade disfarçada de virtude.
Vida é vida, dizia minha avó, e respeito é respeito. O resto é retórica para impressionar plateias ou conquistar curtidas. Não se trata de opor humanos e animais, mas de lembrar que toda compaixão verdadeira começa perto: no modo como olhamos, falamos, cedemos espaço, reconhecemos o outro. Sem isso, qualquer discurso sobre direitos dos animais se torna apenas mais um troféu para o ego.
Talvez, no fim, a maior crueldade animal seja o homem que esquece que também é um — e, acreditando-se divino, perde aquilo que o tornaria verdadeiramente humano.