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Um metaleiro no meio das rainhas do rodeio

Logo eu, um metaleiro de carteirinha, envolto dia e noite em solos de guitarra e bateria, agora cercado por sertanejo, funk e música country

por Flávio Mello

Secretário Municipal de Cultura

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@flaviomelloescritor

 

Eu nunca, em toda a minha vida, poderia imaginar que um dia estaria à frente da organização de um desfile de escolha da rainha do rodeio. Pois é. Logo eu, um metaleiro de carteirinha, envolto dia e noite em solos de guitarra e bateria, agora cercado por sertanejo, funk e música country. E, para coroar esse destino inesperado, já fui até jurado por duas vezes desse mesmo tipo de concurso em Arapoti, 2024 e Santo Antônio da Platina, 2025.

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São 31 anos de carreira dedicados à cultura e, confesso, jamais imaginei que me envolveria em algo assim. Quando assumi a Diretoria de Cultura — e depois a Secretaria — comecei a me aproximar de manifestações culturais que antes me eram distantes. Sempre fui eclético, é verdade: ouço música clássica, MPB, hard rock, punk, tango, samba de raiz... e, claro, sertanejo raiz. Ah, como amo Tonico & Tinoco. Mas ser jurado — e agora organizador — de um concurso de rainha de rodeio?

Nunca passou pela minha cabeça.

E, no entanto, amei a experiência. Não apenas pelo desfile em si, nem apenas pela beleza das mulheres que sobem à passarela. O que me encantou foi algo maior: vi sonhos caminhando diante de mim. Hoje, na condição de organizador, convivo diariamente com meninas e mulheres incríveis. Rimos, conversamos, nos emocionamos juntos. A cada ensaio percebo a importância que tudo isso tem para elas — a escolha da roupa, a cor do vestido, a música da entrada, o detalhe do cabelo. É um universo de expectativas, de ansiedade e de beleza que vai muito além da aparência.

Me emociono junto as que foram desclassificadas, me aproximo das que sentem medo, tento arrancar sorrisos quando a tensão aperta.

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E eu, um velho metaleiro perto dos 50, me sinto privilegiado por estar ali, no meio disso tudo. Me emociono junto as que foram desclassificadas, me aproximo das que sentem medo, tento arrancar sorrisos quando a tensão aperta. Mais que um concurso, esse é o momento em que sonhos ganham forma — e eu, de alguma maneira, ajudo a torná-los realidade.

São dez meninas, diferentes em suas histórias, mas iguais em seus sonhos. E o mais bonito é vê-las ajudando umas às outras, dividindo angústias, apoiando-se mutuamente. Antes de pensar na própria vitória, muitas pensam na felicidade coletiva.

Isso me ensinou que sonhar é um direito de todos — e que os sonhos, quando partilhados, são ainda mais belos.

Até um título extra inventamos para mim, em clima de brincadeira: “Miss Sedução”. Uma piada interna, que talvez algum leitor mais azedo não compreenda. Mas sim, é possível criar amizade, carinho e respeito sem malícia, sem promiscuidade, apenas com leveza e humanidade.

E aqui estou eu: um metaleiro em meio a um rodeio, cercado de rainhas, princesas, sonhos e risos. Feliz. Honrado. Surpreso comigo mesmo. Descobrindo que a cultura é feita também dessas surpresas — e que o belo, quando se revela, pode vir de onde a gente menos espera.

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

 

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