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O MENINO, O LIVRO E O GRIFO DE FOGO

Trazendo o passado para as mãos do presente

Flávio Mello

Escritor e Secretário Municipal de Cultura — Siqueira Campos

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@flaviomelloescritor

 

Perdi as contas de quantas vezes contei — em vídeos, textos, palestras — como minha infância foi rica culturalmente. E como isso teve um impacto brutal na pessoa que sou hoje.

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Cresci numa casa governada por uma única mulher: minha mãe, Elza. Portadora do fogo, tal qual Héstia, ela reinava sobre nós — meu pai, eu e meus irmãos. Enquanto cuidava dos detalhes da nossa vida, oferecendo o alimento quente e a água fresca, também nos dava algo mais valioso: cor, papel, lápis, livros.

Muitos livros.

Muitos vinham das sobras da escola onde ela trabalhava — cadernos semi-usados, lápis gastos, papéis que para os outros já não serviam. Mas nas nossas mãos, tudo ganhava nova vida. Eu, tímido e sempre à espreita, passava horas entre a vegetação da sala ou dentro de cavernas feitas de cobertores, observando o que meus irmãos faziam, o que liam, o que ouviam.

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Foi assim que certa noite vi meu pai, o Rei do nosso clã, e meu avô, o Velho Sábio, discutindo baixinho sobre um grosso livro de capa dura. Em letras garrafais lia-se: Xógum. Na capa, um homem de armadura montado num cavalo me encarava, como se me convidasse para sua história.

Pensei comigo: hoje à noite terá uma batalha épica nos prados da nossa sala de TV.

Mas a noite foi silenciosa. Só de madrugada, minha hora segura, fui espiar e vi a luz amarelada do abajur escapando do quarto dos meus pais. E lá estava ele — o líder do clã, lendo aquele tomo imenso, envolto na dança azulada da fumaça do cigarro.

Muito tempo depois eu mesmo leria aquele livro. E descobriria a fascinante saga do piloto inglês Blackthorne, perdido no Japão do século XVII, tentando sobreviver num mundo onde vida e morte, desejo e repressão, coragem e submissão andavam lado a lado numa muda conformidade. Samurai, gueixas, política, religião, guerra e honra entrelaçados numa história que, naquela infância, já me chamava de algum modo.

Hoje, aos 47 anos, com 31 dedicados à Cultura, tendo o privilégio de ser Secretário Municipal de Cultura da cidade que amo — Siqueira Campos —, percebo como aqueles sonhos de menino nunca me deixaram. Porque ainda sonho.

E foi por isso que, há algum tempo, a vida me deu um presente inesperado: conheci o Yuri Ishikiriyama, por meio do nosso evento Comic’Siq, e com ele descobri o Grifo de Fogo — jovens apaixonados pela cultura medieval, dedicados a recriar histórias e honrar tradições com uma seriedade rara, mas também com alma de criança que ainda sonha com batalhas.

Acreditando veemente que a cultura deva se tornar acessível e democrática a todos, o Grifo de Fogo fundou a Paraná Gryphons a primeira Associação desportiva e cultural do Paraná voltada para a cultura medieval e histórica Europeia e Asiática.

Associação Cultural Desportiva Paraná Gryphons, dedica-se a tornar a cultura e a história medieval acessíveis ao Brasil, construindo um dos maiores acervos de recriação histórica do país e desenvolvendo metodologias inovadoras para transformar conceitos abstratos em vivências práticas. O diferencial desse grupo, além da paixão e do rigor histórico, é preencher uma lacuna que a maioria dos brasileiros sequer percebe: aqui, ao contrário da Europa, raríssimos têm a chance de segurar uma espada, tocar uma armadura, experimentar a sensação de ser parte de uma civilização antiga.

Aqui mesmo, em Siqueira Campos, vi cidadãos comuns, adultos, crianças, emocionados ao se aproximarem dessa história — nas exposições interativas, nas oficinas, nas demonstrações de esgrima medieval realizadas em parceria com a Secretaria de Cultura. Vi sonhos nascendo ali, como nasceram em mim quando criança.

E eu? Eu mesmo tive o privilégio de vestir uma armadura samurai legítima, feita por artesãos japoneses, os mesmos que confeccionam as peças para a série de TV Shōgun. Naquele momento, eu era de novo aquele menino escondido atrás da cortina, imaginando batalhas no Japão feudal, sonhando com guerreiros de honra.

É sobre isso.

Sobre como a Cultura nos permite sonhar, aprender, viver.

Desde pequeno, eu vivo de sonhos.

E ainda sonho.

 

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

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