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Uma Cidadezinha Qualquer

Por que será que carregamos esse gosto amargo de achar que nossas cidades, por serem pequenas e interioranas, não são os melhores lugares do mundo?

Por Flávio Mello

Escritor e Secretário de Cultura

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@flaviomelloescritor

 

CIDADEZINHA QUALQUER

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Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus.

Carlos Drummond de Andrade 

Nota: De Alguma poesia (1930)

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“Eita vida besta, meu Deus!”, disse o poeta moderno lá pela década de 1930. Não sei se vocês sabem, mas em Siqueira temos descendentes de Carlos — o Drummond — também mineiro, como a nossa Colônia Mineira. Mas, enfim... por que será que carregamos esse gosto amargo de achar que nossas cidades, por serem pequenas e interioranas, não são os melhores lugares do mundo?

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De onde veio essa ideia de que o sonho ideal é viver na cidade grande? Como se andar pela estrada de tijolos amarelos nos levasse a um futuro glorioso — e que o interior fosse apenas uma estação de passagem. Sim, eu sei: a vida não é fácil. Muitos precisam sair para estudar, trabalhar, buscar oportunidades. Eu mesmo vivi 39 dos meus 46 anos em São Paulo, na capital. Sou paulista, paulistano, da gema — personagem real de Adoniran Barbosa.

Mas o que trago aqui é uma provocação: precisamos tirar esse estigma de que cidade pequena é o fim do mundo. Como assim não temos nada?

Temos, sim! Caminhamos por ruas de pedra (e, com licença, eu não gosto da ideia de asfaltar tudo), por quintais de muro baixo, cercas vivas, portas destrancadas. O som da televisão no domingo vem de longe. A neblina cobre o campinho. Uma vaca muge ao longe. Cavalos cortam o silêncio da tarde. Pássaros migratórios fazem morada nas árvores antigas, que por noites profundas se tornam brancas de orvalho.

O pôr do sol se deita entre as madeiras tortas das cercas. O céu — ah, o céu! — é amarelo ouro. Azul profundo e infinito, salpicado de nuvens que se desanuviam como canções dos Mutantes.

Como a cidade é besta...

No campo de futebol, uma batalha acirrada entre times rivais. Olhos atentos, cerveja gelada, famílias reunidas.

Como a vida é chata...

Crianças correm descalças atrás de galinhas, de bolas improvisadas. O médico, o farmacêutico, o comerciante, o prefeito — todos se cumprimentam na fila da padaria.

— Oi, senhor Carlos!

— Tudo bem, doutor!

— Quem é o próximo?

— Sou eu! Um litro de leite e meio quilo de pão!

Ah, que poesia. Que música que escorre pelo nosso corpo e afoga nosso coração. Uma tela de Monet, viva, diante dos olhos — mas invisível para quem só enxerga as vitrines dos shoppings. Ignoram o cinema na praça, a banda da cidade com seus instrumentos dourados, o grupo de teatro que se esforça para decorar papéis e emocionar meia dúzia de corações.

Não ligam para o malabarista no semáforo, que faz sol a sol sua arte — como seus pais na lavoura, no trator, colhendo café, cana, trigo, soja... Como os pescadores nos lagos, rios e represas, e as competições de pesca que animam as manhãs.

Sim, precisamos de mais empregos, de mais indústrias, de mais opções de lazer. Mas não podemos continuar ignorando os artistas locais, os trabalhadores da cultura que, enquanto comemos nossos pratos nos grills da vida, nos pesqueiros da vida, estão ali, dando tudo por um pouco de atenção. Enquanto isso, pagamos fortunas para ver os de fora.

Como assim nossa cidadezinha não tem nada?

Tem sim. Tem seu pai, sua mãe, seus tios. Tem seus avós, que desbravaram essas terras, que plantaram, semearam, colheram. E você foi a semente que eles mais amaram. Mas você não vê... está cego pela janela da TV, babando por pernas que passam, por carros que passam, por pessoas que passam nas cidades grandes.

Até o dia em que você volta para a sua cidadezinha qualquer... E vê a vida besta.

A vaca mugindo, o cavalo na praça, as crianças correndo, os idosos jogando cartas.

E aí, talvez, diga:

"Como eu sou besta, meu Deus..."

 

Flávio Mello é escritor, músico e gestor cultural paulistano, com obra marcada por lirismo urbano, crítica social e escuta sensível. Após um acidente na juventude, encontrou na literatura um caminho de reconstrução e expressão profunda. Estabelecido em Siqueira Campos (PR), transformou a cena cultural local por meio de projetos, festivais e políticas públicas, sendo amplamente reconhecido por seu impacto regional. Sua escrita transita entre o realismo brutal e a poesia do cotidiano, abordando temas como infância, fé, masculinidade e resistência. É membro de academias literárias e segue criando, também na música, com um projeto de doom metal filosófico.

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