Muitos nem demonstram, alguns chegam a comentar com a família e amigos, mas nem sempre são levados a sério, mas a verdade é que a incidência de depressão que culmina em suicídio é cada vez mais alta no Norte Pioneiro.
De acordo com informações da 19ª Regional de Saúde, apenas em setembro foram registrados 22 casos de suicídio na região. Em outubro, mais seis casos foram noticiados pela imprensa regional e recentemente, no intervalo de sete dias foram contabilizados três casos, dois em Siqueira Campos e um em Ibaiti.
As duas cidades recordistas de suicídio na região são o município de Wenceslau Braz que, em dois meses, registrou seis casos, seguido por Santo Antônio da Platina com também seis casos.
Os dados ainda demonstram que a ocorrência é maior entre os homens e pessoas entre 30 e 50 anos.
Mas o que leva uma pessoa a tirar a própria vida? A Folha Extra entrevistou a psicóloga que atua no Cisnorpi (Consórcio Intermunicipal de Saúde do Norte Pioneiro) Camila Braga de Andrade, que falou sobre alguns sintomas “alerta” a serem observados por familiares e conviventes. “Os sintomas são muito subjetivos, pois dependerão do contexto e perfil de cada um. No entanto, alguns podem ser comuns como a perda de apetite, em que a pessoa relata “não sentir o gosto das coisas” (o que podemos relacionar com a falta do gosto pela vida ou a dificuldade em “digerir as coisas), alguns, mais raros, passam a comer exageradamente quando a ansiedade bate (o que podemos relacionar com a busca exacerbada de preencher o vazio), podendo desenvolver compulsão alimentar”, explica.

Além dos distúrbios alimentares, quem tem depressão pode apresentar falta de sono, em que a pessoa não consegue “se desligar” das angústias que o atormentam ou o excesso de sono, já que esse pode se tornar uma “fuga”, na busca de esquecer tudo aquilo que precisa resolver internamente, como explica a profissional. “Podemos pensar também, que o excesso de sono pode ser devido ao gasto de energia psíquica/mental que é consumido quando a pessoa está em depressão, apresentando grande cansaço perante a vida”, pontua.
Outros sintomas como a ausência de cuidado com si próprio e isolamento social podem se alternar aos demais e acabar “camuflando” a depressão.
"Eu venci a depressão"
O entrevistado João Silva (nome fictício) viu seu quadro de depressão chegar ao ápice quando tentou suicídio por enforcamento. Transtornado com o vazio que lhe tirava toda vontade de viver, ele tomou a medida extrema e, com a ajuda da família, conseguiu sobreviver e superar um quadro de depressão profunda, mas por pouco não morre.
“Eu só percebi que eu estava com depressão, quando tive um coma alcoólico e um amigo me alertou minha família sobre a mudança de comportamento, mas eles não deram atenção e acharam que por eu ter 16 anos, era um ato de rebeldia”, relembra.
“Era como se eu tivesse constantemente inconsciente, eu dormia muito, ouvia músicas melancólicas, alimentava aquela angústia, flertando com o alcoolismo, me isolando da família, até que eu cheguei ao ápice com a tentativa de suicídio”, relata.
Sobre tentar tirar a própria vida, João não aponta um fator motivante, mas um estado de “anestesia”, no qual estava submergido. “Não houve algo que me motivasse a me matar, mas eu lembro de analisar que viver não fazia sentido, que morrer seria melhor. Eu me sentei diante da árvore e por extinto eu usei uma mangueira para armar uma forca, me posicionei nela, quando meus familiares chegaram e me socorreram”, conta emocionado.
João Silva passou por esta situação há cerca de 10 anos e hoje, recuperado, não se imagina naquela situação novamente. “Eu estava muito aberto a receber ajuda, mas o alarme para minha família foi depois da tentativa de suicídio, aí eles começaram a me acompanhar, me levaram em um psiquiatra, eu tomei remédios por 6 meses e consegui me recuperar, com a ajuda das pessoas, é claro”, orienta.
“É muito mais fácil as pessoas de fora perceberem que algo está errado, do que quem está vivendo a depressão constatar que precisa de ajuda, é importante a família estar atenta e não banalizar, ter uma mão estendida pode mudar a vida de alguém", conclui.
Não é "frescura"
Camila orienta os familiares e pessoas próximas a não ver a depressão como “exagero”, “frescura”, “preguiça” e “drama” e tratá-la como uma doença muito séria, real e complexa. “É preciso um olhar mais cauteloso e menos pré-conceituoso diante dos pequenos detalhes e comportamentos. Há pessoas que tem mais facilidade de se abrir e buscam desabafar com amigos e pessoas mais próximas. Essa é uma questão que precisamos ficar atentos, pois infelizmente as pessoas apresentam despreparo, dificuldade ou até mesmo desinteresse em ouvir o outro, julgando que o outro “só reclama”, “é melancólico” ou até mesmo que “reclama de barriga cheia”.
A profissional ainda acrescenta que a questão é:
“Não há como julgarmos um problema maior ou menor, pois o que é pouco para um, pode ser muito para o outro, e vice-versa, o importante é considerar que há um sofrimento que se está passando”, reforça.


